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Tchalê Figueira

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Ficha do artista

› Carlos Alberto Figueira


Sobre Tchalê Figueira, Francisco Fontes, jornalista que viveu em Cabo Verde entre 2001 e 2004, escreveu:

Tchalê Figueira

É sempre com uma certa perplexidade e afrontamento que o olhar percorre um desenho ou uma pintura de Tchalê Figueira. O traço firme, em formas e volumes distorcidos, e o cromatismo berrante, questionam e ferem.

Não é preciso conhecer o universo do artista para concluir que estamos perante uma arte comprometida, de certo cariz político e ideológico, cuja intenção é deixar em ebulição as zonas limbosas; afrontar os quotidianos obscuros em que cada um de nós se move.

Qualquer tema lhe serve para transpor para a tela ; seja o hediondo trajecto dos ditadores do universo, o obscurantismo das religiões, os tabus sexuais, a hipocrisia dos políticos, o devir dos desfavorecidos, as guerras, as crianças sem infância. Todos os desvarios da condição humana.

O que mais fascina na sua obra é a faculdade de nos inquietar, porque provoca, e nos força a tomar partido. E esse fascínio incita-nos a tentar entender o diálogo que as personagens da tela procuram estabelecer connosco.

Tchalê diz ter despertado para a pintura contagiado pelo seu irmão mais velho, Manuel Figueira, hoje também ele uma referência incontornável da criação artística caboverdiana.

Aos 17 anos evade-se da sua pátria, em fuga à incorporação para a guerra colonial que Portugal alimentava nas denominadas províncias ultramarinas. Após ocupações episódicas como embarcado, fixa-se na Holanda, depois na Suiça, onde frequenta uma escola de Belas Artes. Regressa a Cabo Verde, e à sua cidade, Mindelo, na ilha de S. Vicente, em meados dos anos 80, uma década depois da independência do seu país.

É no rés-do-chão de um edifício comercial da família, na Rua da Praia, no Mindelo, por baixo dos ateliers do seu irmão Manuel e da sua cunhada portuguesa Luisa Queirós, que o vamos encontrar, a redesenhar o quotidiano da sua terra. Nessa rua buliçosa, paredes-meias com um dos marcantes símbolos do colonialismo – a réplica da Torre de Belém – e espraiado para a deslumbrante imensidão da Baía do Porto Grande, capta os ecos de um mundo que transcende aquele pedaço de horizonte

A Rua da Praia é para si uma inesgotável fonte de inspiração. Uma espécie de centro social do mundo. Por aí gravitam os deserdados da sorte, as personagens que diz encontrar em qualquer rincão do planeta – o agiota, a prostituta, o vendedor, o traficante, o louco, o ladrão, o marinheiro, e as próprias figuras que pululam nos cortejos carnavalescos

Nesse centro social do mundo, e noutros sussurros da cidade do Mindelo, mesclados pelas vivências trazidas pelo Porto Grande – escala de viajantes e errantes – Tchalê Figueira colhe também inspiração para outras criações, desenhadas em forma de poema ou história ficcionada.

Já com uma assinalável produção poética ( três obras publicadas ), num país de reduzidas oportunidades editoriais, e duas novelas no prelo, começa também a marcar o seu percurso como um dos mais promissores escritores nacionais do limiar do século XXI.

As suas novelas recriam com mestria o percurso épico que o caboverdiano não pôde enjeitar ao longo dos séculos na luta diária pela sobrevivência. Muitas das personagens leva-as da tela para protagonizarem as peripécias das narrativas. E com rigor quase cirúrgico desnuda-as nas suas leviandades e perversidades.

O belo na sua obra, pictórica ou literária, é quase somente a espelhagem remirada da infância, do amor fraternal ou do percorrido pelos labirintos da paixão.

Avesso ao folclorismo que muitos buscam na criação artística das margens do “primeiro mundo”, faz da pintura – o seu meio de subsistência – um acto quase sagrado, de absoluta liberdade, e de libertação plena. Exercita-a em momentos de exaltação, e não como rotineiro ofício quotidiano, ou ditado pela razão.

Nos seus dias cultiva também uma certa boémia, o convívio com os amigos, os deleites do ócio, as tertúlias do final de tarde no Centro Cultural do Mindelo, as conversas do acaso ao pôr-do-sol numa cratera esculpida pelas enxurradas nas dunas da Praia do Norte com o Vasco, o Germano, o Varela e mais um, ou outro, visitante ocasional, a saborear um trago de bom vinho tinto com um naco de presunto ou chouriço.

E não raro é vê-lo como percussionista rotinado, a dar asas a outros talentos, em concertos jazz, de música tradicional, a emprestar a voz às doridas melodias da morna. Ou a surpreender-nos como intérprete de cinema, ou nos palcos do Mindelact – o renomado festival internacional do Mindelo.

Nestas idiossincrasias se tece a vida e a arte de Tchalê Figueira. Uma arte de profundo humanismo, que nos espanta, nos interpela com a sua aragem fosforescente, visceral, e nos ruboriza a face.

Francisco Fontes
jornalista



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  Última actualização: Sep 2010