Nessa noite, Sidimé Laye e eu
voltámos a pé para o meu hotel,
absortos ainda na ideia da perda da inocência da nossa infância,
da perda de vidas durante a revolução de Sékou Touré,
da perda de amigos e amantes. Mantivemo-nos em silêncio, à medida
que avançávamos pela escuridão que assolava a maior
parte da cidade de Conakri. O som dos nossos passos competia com o das ondas
do oceano batendo de encontro aos rochedos negros. Sidimé Laye deixou-me à frente
do hotel, prometendo encontrar-se comigo às dez da manhã.
Quando
Sékou Touré me expulsou a mim e aos meus pais da Guiné,
pensei que tinha o exclusivo de todas as tragédias do mundo. Tinha
grande admiração por Sékou Touré e pela revolução
por ele liderada. Ao mandar-me para a escola contra a vontade
dos meus pais, contrariando assim a iliteracia entre os soninke,
Sékou
Touré parecia
ter posto ao meu alcance o papel de herói moderno. Poderia aprender
a falar Francês, escrever cartas em nome do meu povo e equiparar-me
aos meus amigos guineenses letrados. Poderia até vir a ser médico
ou professor no novo estado-nação. Naquela altura senti que
a expulsão
me estava a privar de tudo isso e a mandar-me de volta para a
minha tribo e os seus costumes. Invejei os meus amigos que, ao
contrário
de mim, continuariam a desempenhar os seus papéis como actores na
revolução guineense.
Confesso que a razão principal do meu regresso à Guiné,
ao fim de todos estes anos, se deveu ao meu desejo de recuperar
algumas das coisas que a expulsão me tinha tirado – de forma
a poder tornar-me novamente parte da Guiné.
Como poderia eu saber que
Sidimé Laye, o meu maior objecto de inveja entre
todos os meus amigos, tinha sido, de alguma forma, prejudicado
pela revolução?
Limitara-me a ver o seu uniforme escolar sem vincos, as suas
notas excelentes em ortografia e matemática e o seu comportamento
digno, pouco habitual numa criança da nossa idade.
Lembro-me que certa
vez estávamos a jogar futebol e que Bangaly atirou
a bola por cima do muro, para o pátio de Musa Diakité, um velho
malvado que usava sempre um chicote feito de couro de camelo.
Todos nós
conhecíamos a regra estabelecida por Musa Diakité para recuperar
a bola: quem fosse ao pátio buscá-la, receberia dez chicotadas
do velho. Por vezes, os mais corajosos saltavam rapidamente o
muro e traziam a bola, antes que Musa Diakité tivesse tempo de pegar
no seu chicote e fosse atrás deles aos gritos, insultando-os a eles,
aos seus pais e às
suas mães. Musa Diakité tinha mais de quatro mulheres. Quando
estava a bater numa delas com o chicote de couro de camelo, ninguém
se atrevia a interrompê-lo, não fosse ele acusar o intruso de
dormir com a sua mulher e começar a chicoteá-lo também.
Naquela
vez, quando Bangaly atirou a bola para dentro do pátio, o velho
malvado, que nessa altura já tinha percebido o nosso truque, antecipou-se.
Depois de ter apanhado a bola, foi para o seu ce-so (a sala do chefe
de família num grupo de casas), pegou no chicote e ficou à espera
junto à porta. Sidimé Laye disse então que ia buscar
a bola. “E
o chicote?” perguntei eu. Respondeu-me simplesmente que era apenas
uma tareia e que passaria. Por qualquer razão, Musa Diakité não
o chicoteou. Devolveu a bola e nunca mais voltámos a atirá-la
para o pátio.
Sempre pensei que a nobreza de Sidimé Laye era inviolável,
que ele era inatingível e que ninguém lhe poderia tirar o que
quer que fosse. Sempre pensei que ele fosse mais afortunado que eu. Era melhor
que eu na escola e tinha uns pais perfeitos que, ao contrário dos
meus, que nem falavam bem Mandika, nunca o embaraçavam. Todos queriam
ser amigos de Sidimé Laye, tanto os rapazes, como as raparigas. Como
era possível
imaginá-lo vulnerável ao que quer que fosse, especialmente à revolução
que estava a fazer de nós heróis? Seria possível que
eu tivesse estado tão ocupado com a minha própria perda, a
ponto de não ser capaz de me aperceber da sua? A minha perda tinha-me
cegado. Pensava que comparada com a minha, qualquer outra vida era isenta
de sofrimento.
Mas, na verdade, eu tinha tido mais sorte em deixar a Guiné naquela
altura. O meu pai tinha escapado às prisões de Sékou
Touré e
eu tinha prosseguido os estudos em Bamako, Mali. Ao fim de pouco
tempo, fizera novos amigos que tinham ocupado o lugar da maioria dos meus
amigos da Guiné.
No entanto, continuei a admirar Sékou Touré e a agarrar-me à memória
da minha infância com Sidimé Laye, Bangaly Sidibé, Lamine
Diakité e Antoine Mitterrand. Tinha saído da Guiné numa
altura em que a revolução estava a perder o vapor. Por isso,
pode dizer-se que saí da Guiné durante os bons velhos tempos.
Tinha tido a sorte de viver na Guiné, quando Sékou Touré desmascarara
os brancos e sentira-me pessoalmente tocado por ele. Tive também a
sorte de levar comigo para Bamako a sensação, criada por Sékou
Touré, de ser um homem novo, capaz de moldar o destino da minha África.
Lembro-me como se fosse ontem da nossa viagem de regresso ao
Mali. Éramos
mais de 350 pessoas num barco que se dizia estar só preparado para
levar 150. Estava-se em Janeiro e as águas do rio começavam
a recuar. Muitas vezes, o barco encalhava e nós tínhamos de
acampar na margem para que os homens pudessem retirar a areia que obstruía
a passagem. Nessas ocasiões, tirava o meu canivete suíço
e gravava o meu nome nas árvores, ao lado dos de Sékou Touré,
Patrice Lumumba e Kwame Nkrumah. Por vezes acampávamos perto de uma
aldeia onde passávamos
a noite. Havia sempre polícias e soldados que nos contavam e se certificavam
de que voltávamos para o barco na manhã seguinte. Costumava
imaginar que era Moisés, à procura da terra que Sékou
Touré,
Lumumba e Nkrumah nos tinham prometido.
Sidimé Laye permanecera na
Guiné durante os anos de pesadelo, em
que era habitual irmãos denunciarem irmãos e filhos mandarem
as suas mães para a prisão. Sacrificara a minha infância às
fantasias sobre o homem novo e a descolonização. Sidimé Laye
sacrificara a sua a um ambiente de violência, conspirações
políticas e traições. Continuo a viver e a alimentar-me
dessas fantasias sobre a libertação africana e regressei à Guiné a
fim de revisitar o lugar de origem desse sonho, o lugar onde
renasci como homem novo. Sidimé Laye perdeu o seu tio nas incessantes
conspirações
políticas que também despedaçaram a sua família
e interromperam os seus estudos nas escolas revolucionárias de Sékou
Touré. Eu tinha deixado a Guiné, acreditando na revolução,
não me apercebendo de que a expulsão de africanos como os meus
pais constituía o primeiro sinal do seu fracasso. Sidimé Laye
tinha visto a revolução transformar-se num pesadelo e tinha
tentado aguentar a situação, dia após dia, até ter
idade suficiente para fugir dela. Tinha recomeçado uma vida nova em
Abidjan, Costa do Marfim, e, mais tarde tinha-se mudado para
Lagos, Nigéria,
onde obteve sucesso com as suas esculturas em madeira. Voltara à Guiné a
fim de reconquistar a sua mulher e de refazer a sua vida destruída
pelo legado de Sékou
Touré. Compreendo agora que a minha Guiné é diferente
da de Sidimé Laye. A sua Guiné representa o local onde as coisas
correram mal, onde os sonhos foram traídos e onde as pessoas se sentiam
encurraladas num medo constante. A minha ainda conserva a patine
da inocência,
da beleza e da exuberância.
O sonho do pai de Sidimi acerca da escultura
de máscaras só ganhou
relevância para mim não só pelo facto de Laye ter perdido
a sua mulher, o que em si mesmo não é de somenos importância,
mas também por uma máscara descoberta num avião ter
levado à prisão
do seu tio e ao seu abandono da escola antes de ter completado
o oitavo ano. Como era possível que actualmente Sidimé Laye
encontrasse paz a esculpir máscaras e estatuetas, quando o sonho do
seu pai constituía
um aviso inequívoco acerca da inquietação que elas poderiam
provocar na alma? A prisão e a morte sob tortura do seu tio, a forma
repentina como ele abandonou a escola, as suas deambulações
pela África
Ocidental como exilado guineense e a perda da sua mulher – tudo isto
indicava que as máscaras tinham amaldiçoado Sidimé Laye.
Nos
primeiros anos após a independência, Sékou Touré mudou
o objecto da revolução: a sua ira passou a concentrar-se noutros
grupos étnicos africanos da Guiné e nas suas tradições.
Por um lado, a expulsão de pessoas como o meu pai poderia justificar-se,
devido aos seus valores pequeno-burgueses que prejudicavam os
esforços
de colectivização do socialismo e a administração
eficiente e incorrupta do novo estado-nação. Por outro lado,
a expulsão de africanos ocidentais de um outro país da África
Ocidental com uma herança histórica e cultural comum punha
em causa o significado da independência e da crença de Sékou
Touré no
pan-africanismo. Lembro-me que o meu pai costumava dizer que
Sékou Touré se
tinha livrado dos franceses, a fim de nos dominar: queria ter
a certeza de que não havia ninguém a observá-lo, quando
a sua ira se virasse contra o seu próprio povo. O meu pai nunca tinha
aceite o rótulo
de contra-revolucionário como justificação para a transformação
da Guiné num Estado policial. Pretendia que Sékou Touré adaptasse
o seu governo revolucionário de modo a incluir a maior parte da população,
mesmo que isso significasse incluir os contra-revolucionários.
Outro
erro trágico da revolução guineense foi o seu ataque
insistente às instituições tradicionais, acusando-as
de serem práticas reaccionárias. A revolução,
como Sékou
Touré disse várias vezes, baseava-se em sistemas comunitários
africanos; distinguia-se de outros tipos de socialismo por ser
um socialismo africano. No entanto, Sékou Touré banira instituições,
como as danças tribais com máscaras, a adoração
de ídolos
e a estrutura de clã, tradições que mantinham as comunidades
unidas. Assim, ao mesmo tempo que afirmava a diferença entre o seu
socialismo e o socialismo europeu, continuava a julgar as tradições
africanas segundo uma estreita perspectiva marxista.
Consequentemente, não conseguiu
transformar os costumes e as leis tradicionais dos clãs em algo dinâmico
e moderno. Tal como a maior parte dos líderes africanos, conseguiu apenas
afastá-los de modo temporário e brutal.
A maldição das máscaras
Hoje, passados
dez anos sobre a morte de Sékou Touré e a queda
da maior parte parte dos primeiros regimes nacionalistas africanos,
as máscaras,
estatuetas e tradições orais – que constituem o principal
suporte do tribalismo em África – ressurgem como uma espécie
de vingança. Quando aparecem no mercado, pela mão de experientes marchands,
as máscaras e estatuetas causam uma impressão estranha, geralmente
associada ao kitsch. Parecem estar vivas, mas têm um ar ridículo
e apalhaçado. É como se, nesse momento, o facto de estarem
vivas se tornasse dramático e elas perdessem toda a sua seriedade,
transformando-se em imitações infantis, banais, por surgirem
em tão grande número. É precisamente essa ubiquidade
das máscaras e estatuetas como mercadoria que impede que as levemos
a sério.
Num canto, podem estar quinze máscaras, todas com
chifres. Ao lado delas, mais quinze, representando animais selvagens.
Pode também haver
caras esculpidas com pregos nos olhos; outras com línguas protuberantes;
outras abstractas com cabeças achatadas, testas proeminentes, maxilares
distendidos e narizes impossivelmente longos; e, é claro, as incontornáveis
máscaras chiwara (de antílope). As estatuetas costumam estar
dispostas atrás das máscaras. Umas são altas, brandem
facas ferrugentas e têm os pénis pendentes até aos joelhos,
outras são barrigudas e recobertas de cicatrizes tribais. Há estatuetas
com cobras na cabeça; outras com os braços erguidos, com uma
só perna, com três pernas; outras ainda a andar a cavalo ou
a servir de base para um banco; e outras que são semi-humanas, semi-animais,
ou semi-masculinas, semi-femininas. Dispostas deste modo, as
máscaras
e estatuetas tornam-se parte integrante do mercado. Como qualquer
outra mercadoria, elas competem por um comprador que possa restaurar
o seu carácter único
como máscara baule, máscara fang, ou imagem ancestral dogon.
Ao competirem esteticamente entre si, elas adquirem um ar dramático,
como se dissessem: compra-me a mim, sou mais autêntica do que as outras.
Compra-me a mim, sou a máscara mais bonita que há aqui. Compra-me
como recordação deste lugar. Compra-me, farei um bom presente.
O
meu pai e todas as pessoas da minha tribo acreditavam no poder
transformador do mercado. Mesmo aquelas que não tinham artigos para
vender, tomavam um duche todas as manhãs e vestiam roupa lavada para
ir ao mercado. Acreditavam que os mercados traziam boa sorte
aos às
pessoas. O meu pai costumava obrigar-me a passar aí os meus fins-de-semana.
Eu vendia nozes de cola num grande tabuleiro, que carregava à cabeça
por entre as bancas, ou, quiçá, cubos de açúcar
de que as pessoas precisavam, quando comiam algo ou bebiam chá no
mercado. Por vezes, limitava-me a estar sentado a ouvir as histórias
dos homens da tribo.
Os vendedores dispunham sempre os seus artigos
de forma esmerada e estratégica a fim de atrair clientes. À frente
punham os panos mais coloridos e mais baratos, os chapéus, os sapatos
e as malas. Os panos tinham como motivo o retrato de políticos africanos
emergentes como Lumumba, Nkrumah e Sékou Touré, de jogadores
de futebol como Pelé ou slogans como “Viva a unidade
africana!” ou
com a data da independência da Guiné. Os tecidos mais caros,
os chamados Super wax, vindos da Holanda, ficavam atrás.
Tal
como as máscaras, os tecidos Super wax conseguiram manter
o seu capital simbólico, apesar da revolução. As pessoas
passam pelos panos com grandes retratos de Sékou Touré e Nkrumah
e compram os tecidos mais caros que estão dispostos atrás.
Quando era pequeno, nunca percebi porque é que a minha mãe,
que todas as semanas comprava tecidos, nunca comprava os tais
panos com o retrato de Sékou Touré. Toda a gente usava esses
panos nos comícios políticos e a mim pareciam-me o último
grito, porque retratavam as figuras mais importantes da revolução
africana.
Gostava dos tecidos com as nossas imagens africanas – o mapa
do continente, as moedas nacionais, as caras dos presidentes.
O meu pai, por outro lado, detestava tudo o que contivesse a
imagem ou as ideias de Sékou Touré. Dizia que Sékou
Touré estava
a destruir o mercado, juntamente com tudo aquilo que fazia as
pessoas felizes e livres.
Ao insistir em esculpir máscaras para o mercado,
Sidimé Laye
revelava uma certa afinidade com o meu pai: ambos usavam o mercado
para dizer não à revolução. De certo modo, a
rendição
do aspecto dramático das máscaras ao sistema de mercado que
as transforma em objectos de venda, não é tanto um sinal da
extinção do espírito das máscaras, mas mais um
exemplo do fracasso de Sékou Touré em integrá-las na
revolução guineense e em transformar o seu papel num esforço
em prol da construção de uma nação.
O regresso
vingativo das máscaras, estatuetas e tradições
orais manifesta-se também na sobrevivência das sociedades secretas
e dos rituais de máscaras na Guiné. Alguns destes rituais já tinham
sido abolidos pelos muçulmanos no século XIX e início
do século XX. Sékou Touré baniu os rituais de máscaras
e as sociedades secretas nos tempos iniciais do regime, sob pretexto
de serem reacções contra-revolucionárias aos movimentos
africanos de progresso e unidade. Uma vez que todo o líder africano
necessita de uma religião ou de uma origem mítica a fim de
consolidar a sua imagem, Sékou Touré optou pelo misticismo
islâmico
em detrimento do poder mágico das máscaras e acrescentou ao
seu nome “Ahmed”, uma abreviatura do nome do profeta “Muhammad”.
Foi assim que Ahmed Sékou Touré se tornou no inimigo declarado
dos clãs que veneravam máscaras e estatuetas.
Almamy Samory Touré, alegado avô de Sékou Touré,
utilizara o Islão para unificar as diversas tribos da África
Ocidental, numa longa e dura resistência à colonização
francesa. Ahmed Sékou Touré desenvolveu um misto de islamismo
e marxismo-leninismo não só contra a França, mas também
contra os adoradores fanáticos de máscaras e ídolos
tribais que representavam uma ameaça à revolução.
Muitos marabus viram também na revolução a possibilidade
de alargar, para lá da mesquita, a influência ao resto da sua
aldeia, ou mesmo da sua província, denunciando os poderosos fundadores
e chefes locais que não haviam conseguido converter inteiramente ao
islamismo, durante a era colonial. As suas denúncias levaram à corrupção
e à chantagem. Passado pouco tempo, os mesmos marabus transformavam-se
em ricos comerciantes de máscaras e estatuetas em Nova Iorque, Paris
e Genebra. Mais tarde, a revolução baniu as máscaras,
tanto no que se refere às cerimónias rituais, como à exportação
para os mercados estrangeiros. Muitas pessoas inocentes foram
apanhadas na rede e sofreram – ou morreram, como o tio de Sidimé Laye.
Hoje
em dia, os rituais de máscaras, tal como as seitas cristãs
radicais, estão de regresso a muitas aldeias. E, em consequência
do zelo e do fundamentalismo típicos dessas seitas, os aldeãos
olham com nostalgia para o passado, quando esses rituais eram
puros, completos e viris. Pede-se aos cidadãos mais velhos que recordem
como esses rituais eram realizados: quantas máscaras eram usadas,
que passos de dança correspondiam a que máscaras, quem podia
participar e de que forma se distinguiam uns dos outros. Na realidade,
alguns dos rituais morreram no início do século XX e a sua
memória
sobrevive apenas através da tradição oral. Contudo,
estão
a ser reconstituídos por todo o lado na Guiné actual, como
noutras partes de África, por minorias tribais em busca da sua identidade étnica.
Estas
minorias são ajudadas na sua demanda por antropólogos,
turistas e historiadores ocidentais que tendem a encarar de forma
pouco favorável
o estado-nação africano. Por isso, as máscaras passaram
a fazer parte dos conflitos políticos globais como forças organizadoras
de mercados, identidades étnicas e culturais em oposição
aos estados-nação e à unidade africana. Na Guiné,
por exemplo, a cerimónia de máscaras realizada pelos baga constitui
uma expressão da identidade baga que o regime de Sékou Touré reprimiu.
Da mesma forma, a autenticidade da arte tradicional do Benim
na Nigéria,
da arte dogon no Mali e da arte ashanti no Ghana distingue estes
grupos étnicos
de outros como sendo mais autênticos e originalmente africanos.
Efectivamente,
a etnicidade está hoje na moda em África e toda
a gente, desde o intelectual ao comerciante, a reivindica contra
a unidade proposta pelo estado-nação. Alguns intelectuais africanos
vêem
nas novas tendências democráticas que agora se verificam em África
uma esperança para o futuro, no que respeita ao reconhecimento das
diferenças étnicas no interior do estado-nação.
De acordo com esta lógica, as eleições não são
em si mesmas suficientes; o vencedor tem, além disso, de agir como
Nelson Mandela na África do Sul e nomear representantes das tribos
para cargos no seu governo.
As mascaras à venda no mercado, mesmo nas
suas manifestações
mais kitsch, representam a persistência da África tribal.
As máscaras simbolizam os clãs e, consequentemente, a negação
do novo estado-nação que tentou suprimi-las. Logo após
a independência, os marabus, conselheiros ideológicos marxistas
de Sékou Touré, e as elites cultas uniram forças para
erradicar a prática das religiões tribais e dos rituais de
máscaras que continuavam a controlar a vida das pessoas. Por esta
razão tem-se revelado difícil para os africanos, incluindo
os intelectuais modernos, abandonar as práticas tribais a fim de responder
ao apelo de uma identidade revolucionária e nacionalista. Quando era
criança, a revolução ensinou-me que o apego aos costumes
tribais era reaccionário. Devo ter acreditado nisso, porque os meus
familiares e eu éramos estrangeiros na Guiné; já tínhamos
passado por isso, já estávamos mudados. Eu procurava algo a
que pudesse pertencer e a revolução continha em si a promessa
de igualdade. Sidimé Laye e os meus outros amigos, pelo contrário,
estavam no seu elemento. A mudança para eles representava um esforço
mais violento.
O pai de Laye dizia que as máscaras lançam uma
maldição
sobre as pessoas que estão constantemente de volta delas. Isto lembra-me
a história de Biida, o deus serpente, que lançou uma maldição
sobre o povo do Império Wagadu. Quando os comerciantes muçulmanos
e os condutores de escravos chegaram à nossa região, no início
do século XVIII, consideraram os nossos deuses impróprios e
os nossos costumes pagãos. A erosão dos nossos costumes e religiões
pelo Islão conduziu à destruição do império
soninke do Ghana e da sua capital Wagadu.
O Ghana foi o maior
e mais poderoso império da África Ocidental
até à chegada dos comerciantes árabes no final do século
VI, início do século VII. Nesse tempo, era costume sacrificar-se
anualmente a mais bonita donzela da região a Biida, o deus serpente,
que se escondia na fonte da riqueza. Em troca, Biida fazia com
que o Ghana fosse o império mais poderoso e temido, com muito ouro,
prata e colheitas abundantes.
Então, um ano depois de os muçulmanos
terem chegado e convertido o rei e os comerciantes africanos
poderosos, um homem chamado Mamadu Séfé Dokoté – Mamadu,
o taciturno – desafiou o rito anual. A donzela escolhida chamava-se
Sira; era a noiva de Mamadu e a rapariga mais bela de Wagadu,
ou mesmo de todo o Ghana. Quando Sira soube da objecção de
Mamadu à sua
escolha para donzela de Biida, ficou profundamente envergonhada
e ofendida. Não queria que as pessoas pensassem que era menos bela
ou menos digna do que as outras raparigas, que era menos merecedora
de ser a escolha de Biida ou que tinha medo de morrer. Que desonra para ela,
se outra rapariga fosse escolhida em seu lugar! E quanta honra e prestígio,
se ela conseguisse apaziguar a fome de Biida por uma donzela
e ser responsável
pela sua generosidade e amor para com todo o império!
Mas Mamadu, cujo
nome indica que se convertera ao Islão, estava cego
pelo amor e pela sua nova religião. Recusou-se a dar ouvidos a Sira.
Afiou o sabre, montou o cavalo e cavalgou até à fonte da riqueza,
escondendo-se no mato, à espera que acabasse o ritual do transporte
de Sira até junto da boca da fonte. Depois de toda a gente ter dispersado
e deixado Sira entregue à sua sorte, Mamadu saiu do mato. Sira, trajando
um vestido de noiva branco que a envolvia dos pés à cabeça,
não viu Mamadu chegar. Como poderia ter visto? Estava num lugar sagrado
e nenhum ser humano deveria estar presente, quando Biida emergisse
da fonte da riqueza. Qualquer barulho que tivesse ouvido tê-lo-ia atribuído
ao próprio Biida.
Mamadu ficou à espera junto à fonte,
com o sabre a postos para Biida. De manhã à noite, Sira e Mamadu
esperaram em silêncio.
Biida surgiu à meia-noite. Emitia um som ensurdecedor, avisando as
pessoas de Wagadu para ficarem nas suas casas e trancarem as
portas. O som era também sinal de que aceitara o sacrifício.
Mas Mamadu estava no seu posto. Mal a cabeça de Biida emergiu, Mamadu
cortou-a com o seu sabre e lançou-a pelo ar em direcção
ao Norte do império. Para sua surpresa, surgiu outra cabeça.
Cortou-a também
e desta vez lançou-a em direcção ao Sul. Seguiu-se-lhe
outra que foi lançada para Leste. E ainda outra para Oeste. Mamadu
repetiu pois o movimento do sabre quatro vezes. De cada vez que
uma cabeça
era decepada e atirada, lançava uma maldição sobre o
Ghana. E, desde essa noite, o ouro, a prata, o sal e a chuva
desapareceram do Ghana. O império foi destruído e a sua população
tornou-se escrava dos mouros. Os soninkes que escaparam à escravatura
partiram em busca de ouro, prata, sal, água e outras formas de riqueza.
Ainda hoje são conhecidos por percorrerem grandes distâncias à procura
de riqueza. Talvez tenha sido a maldição de Biida, o deus serpente,
que inicialmente levou os meus pais à Guiné e, mais tarde,
os fez sair de lá.
Depois dos muçulmanos, vieram os missionários
cristãos
e as expedições coloniais. Atacaram cidades e aldeias inteiras,
queimaram máscaras e estatuetas e arrebanharam homens e mulheres para
o comércio atlântico de escravos. A história tornou-se
conhecida por ter sido narrada vezes sem conta por historiadores,
escritores e artistas. Things Fall Apart de Chinua Achebe constitui
um relato importante sobre o modo como os missionários cristãos,
secundados por exércitos coloniais, destruíram santuários
africanos e queimaram as máscaras e estatuetas que simbolizavam os
deuses. Ao contar a história da aldeia imaginária igbo de Umuofia,
Achebe mostra a facilidade com que as pessoas desistem da resistência à colonização,
quando os seus deuses e costumes são dessacralizados e repudiados.
Tal como os muçulmanos em Wagadu, os missionários brancos sabiam
que a melhor maneira de conquistar os africanos era conquistando
os seus deuses e que a melhor maneira de os dominar era dominando
as suas máscaras
e estatuetas. À medida que, uma após outra, as aldeias africanas
iam sendo conquistadas, os missionários iam queimando algumas das
suas máscaras e conservando outras como troféus para serem
expostas nos museus da Europa.
A vitória dos muçulmanos e dos
missionários cristãos
sobre os nossos deuses deixou-os zangados connosco. Tínhamo-los exposto
ao escrutínio estrangeiro e à blasfémia. Não
tínhamos sido capazes de os proteger do cepticismo estrangeiro. Tínhamos
permitido que os muçulmanos e os cristãos matassem os nossos ídolos,
como Biida, e queimassem e roubassem as máscaras e estatuetas que
continham o espírito dos deuses. Agora vemo-nos reduzidos a um vazio
religioso que nem o islamismo, nem o cristianismo podem preencher.
A estatueta Fang Byeri como arte primitiva
Mas as máscaras, as estatuetas e as tradições orais
recusaram-se a morrer. Ressurgiram em Marselha, Paris, Berlim,
Bruxelas e Londres por acção de antigos administradores coloniais,
expedições
antropológicas e artistas – todos eles herdeiros e beneficiários
das mesmas noções iluministas que haviam detonado os seus canhões
contra as culturas africanas inocentes. As máscaras e estatuetas serviram
de matéria-prima à requintada arte primitivista de Picasso,
Derain, Vlaminck, Lhote e Magnelli. Estes modernistas tinham
perante as máscaras
e estatuetas a atitude de uma criança perante o leite materno. Utilizaram-nas
não apenas como fonte de alimentação e inspiração,
mas também como protecção contra as ansiedades e as
grandes narrativas da modernidade. Em casa destes artistas, bem
como nos museus, as máscaras e estatuetas encontraram uma nova reverência,
ao lado das suas próprias pinturas e esculturas.
Mas, ao serem destituídas
do seu carácter tribal e ao deixarem
de ser propriedade de um clã ou de uma aldeia, as máscaras
e estatuetas passaram a dever o seu valor simbólico aos artistas europeus
aos quais estavam associadas. Como se, em virtude dessa proximidade,
passassem a ter a assinatura de artistas modernistas e, por essa
razão,
fossem também obras de arte modernistas.
Em retrospectiva, compreendo a relutância de Sidimé Laye em
assinar as suas esculturas, uma vez que nenhum artista africano
contemporâneo
consegue competir com a arte africana primitiva e anónima, associada
a nomes como Vlaminck, Derain e Picasso. Eis outra forma de vingança
das máscaras e estatuetas sobre os africanos: impediram o reconhecimento
de artistas africanos contemporâneos no Ocidente e privaram artistas
como Sidimé Laye da possibilidade de assinar as suas obras. O próprio
Laye afirmou que as máscaras e estatuetas representam melhor a África
que os intelectuais e artistas africanos. O Ocidente aprecia
as máscaras
e estatuetas, porque intermediários como Derian e Picasso – que
são ocidentais dotados de um poder simbólico que lhes permite
definir a arte – os classificaram como objets d’art.
Ironicamente, quanto mais os próprios africanos persistem em referir
Picasso como testemunha da qualidade estética das suas máscaras
e estatuetas, mais ajudam a tornar invisíveis os artistas contemporâneos
que têm como ponto de referência a África moderna. Por
isso, enquanto o Ocidente detiver o monopólio da definição
da arte africana, Sidimé Laye continuará a esculpir máscaras
e estatuetas, recusando-se a assiná-las.
As referidas máscaras
e estatuetas servem ainda um outro tipo de clientela no Ocidente,
que não
tem senão desprezo pelos artistas africanos
e pela sua assinatura. Essa clientela é constituída por influentes
negociantes, coleccionadores, marchands de arte e museus. Tal como
os artistas ocidentais, começaram a interessar-se pelas máscaras
e estatuetas africanas no início do século XX. Alguns dos primeiros
coleccionadores, como Pierre Guerre de Marselha e Jean-Pierre
Jernander da Bélgica, provinham de famílias com um passado
colonial em África.
Jernander, por exemplo, utilizou os seus antigos contactos coloniais
no Congo belga para fazer sair clandestinamente do país máscaras
e estatuetas que foram vendidas a museus e coleccionadores norte-americanos
(de Roux, 1996). Charles Ratton, um importante coleccionador
e marchand francês,
colaborou com os nazis, durante a II guerra mundial. A sua reputação
duvidosa forçou o Louvre a recusar importantes doações
suas, como máscaras e estatuetas, que quis doar ao museu em 1986.
O melhor da colecção Ratton está actualmente exposto
num novo museu de arte africana, o Musée Dapper, em Paris.
Tal como
os artistas ocidentais, os marchands e coleccionadores
do Ocidente usurparam a autoria das máscaras e estatuetas africanas,
transformando-se nas mais importantes fontes para a valorização
de objectos africanos. São eles que estabelecem os critérios
de autenticidade e juízo estético. Assim, quando máscaras
e estatuetas africanas são leiloadas na Christie e na Sotheby em Nova
Iorque ou na Drouot-Mointaigne e na Drouot-Richelieu em Paris, é costume
referir os seus antigos proprietários europeus e os museus onde foram
exibidas no Ocidente. O facto de uma máscara ou uma estatueta ter
pertencido à colecção de Charles Ratton, Van Bussel
ou Pierre Guerre constitui uma confirmação mais forte da sua
autenticidade do que o testemunho do membro de um clã africano.

Três perspectivas sobre a estátua fang vendida em Paris em
1966 (Fotografias: cortesia de Gérard Bonnet, Marselha, França).
Em
1996, uma estatueta fang foi licitada por mais de um
milhão de dólares
na Drouot-Montaigne, um acontecimento que levou o jornal Le Monde a
aclamar Paris como a nova capital europeia da arte primitiva
(de Roux, 1996). A originalidade da estatueta foi confirmada,
não pela assinatura
de um artista fang, mas sim pelo facto de anteriormente ter pertencido
a um Doutor Bergier (que a tinha comprado a um marinheiro em
1846) e de, depois, ter feito parte da colecção de Pierre Guerre.
A proveniência
da estatueta foi considerada ainda mais ilustre por ter sido
exibida em numerosas exposições no Ocidente, incluindo a Exposition
internationale des arts d’Afrique et d’Océanie (Palais
Miramar, Cannes, 1957), Arts Africains (Musée Caution,
Marselha, 1970) e Art Fang (Musée Dapper, Paris, 1991).
O facto de ter sido objecto de análise e crítica por parte
de africanistas ocidentais como Michel Leiris, Louis Perrois
e Raoul Lehuard ajudou também a abrilhantar a peça. As máscaras
fang e as estatuetas em geral são famosas no Ocidente por terem pertencido às
colecções de Leo Frobenius, Jakob Epstein, Pablo Picasso,
Raoul Guillaume e Charles Ratton.
A estatueta que foi leiloada
em Paris é uma figura religiosa fang,
com cerca de quarenta centímetros de altura, feita de madeira exótica.
Está nua e tem um tom castanho; a face, certas partes do pescoço,
os braços e o umbigo são pintados com uma tinta preta, o que
faz com que pareça brilhar e suar como um ser humano. A face é esculpida
em forma de coração, sob uma testa alta e arredondada. As sobrancelhas
prolongam as linhas que formam o nariz, dividindo o lado esquerdo
da face do lado direito. As pálpebras estão fechadas e cobertas
de tinta, sugerindo uma cegueira causada pela velhice.
A estatueta
deve ter representado um antepassado; a sua testa reluzente é lisa
como a de uma caveira. Estatuetas semelhantes, pertencentes a
relicários
de família, têm olhos bem abertos que parecem olhar intensamente
para alguém ou alguma coisa. Algumas delas têm placas de metal
redondas, missangas ou pregos nas órbitas oculares, para que o seu
olhar pareça mais assustador. Mas, apesar dos olhos fechados, esta
estatueta parece devolver o olhar de quem a observa e criar uma
aura de omnisciência.
Em contraste com os olhos e o nariz, sobre os
quais surgem a testa arredondada e as sobrancelhas alongadas,
evidencia-se a boca que ocupa a maior parte da queixada e sugere
uma parecença
com a cara oval de um homem do Neanderthal. A estatueta salienta-se
também
pelo penteado cuidadosamente realizado na parte detrás da cabeça
em padrões
simétricos, fazendo lembrar folhas de palmeira. Com efeito, o penteado
desta estatueta byeri, tal como o de numerosas estatuetas do
Gabão,
de Angola e do Congo, é tão perfeito que constitui uma entidade
distinta do rosto. Comparado com a simplicidade geométrica primitiva
do rosto, o penteado apresenta uma complexidade de concepção
que evidencia a sua autonomia estética. A face é tão
primitiva – conotativa da religião e das forças vitais
dos antepassados – como o penteado é belo e auto-referencial.
O
pescoço não constitui apenas um suporte para a cabeça,
mas forma um cilindro liso ligado à cara, que termina numa boca saliente
com dentes limados e no penteado que parece estar ligado à coluna
vertebral. O longo e possante pescoço serve também para ligar
a cabeça aos ombros quadrados e ao resto do corpo, estabelecendo um
movimento rítmico entre o rosto e as mãos que seguram uma tigela
por baixo do queixo. Assim, o pescoço delineia a configuração
espacial desta escultura, ao estabelecer uma relação entre
os ombros, cujas linhas formam um ângulo recto em baixo, e a cara e
o penteado, que formam um triângulo em cima.
Mas, em termos rítmicos,
a estatueta marca também o espaço
e o tempo de outras maneiras. O rosto inclinado para baixo, de
olhos fechados, as mãos, erguendo a tigela entre os ombros e o queixo,
e os joelhos flectidos apontam para três movimentos do corpo que marcam
ritmos contrastantes: para baixo, para cima e para baixo. O umbigo
proeminente como uma pequena erecção é típico
das estatuetas fang, em que o umbigo acentua frequentemente a ambiguidade
sexual dos peitos femininos e dos órgãos genitais masculinos.
As estatuetas fang são também conhecidas pelos seus traseiros
exageradamente volumosos, que formam um círculo à volta da
cintura e salientam o arredondamento das coxas. O que esta estatueta
tem de particular é a sensibilidade estética com que o artista
esculpiu cada uma das partes do corpo. Na maior parte das outras
esculturas fang, os olhos bem abertos, os dentes aguçados cerrados,
as três
grandes fiadas do penteado e os braços, rabos e pernas exageradamente
musculados servem para acentuar o papel da estatueta como objecto
sagrado e para caracterizá-la como artefacto etnológico. Mas,
neste caso, a mão do artista conseguiu domar estas partes canónicas
e submetê-las a uma lei estética que eleva a peça para
além do ritual e da etnologia.
Estar em presença desta estatueta – que
reluz e parece dotada de consciência, como um ser humano – é mais
que uma experiência
religiosa ou a descoberta da cultura tribal. O observador fica
impressionado com o sentido de proporção artística e
a interacção
entre as diferentes partes do corpo. Como se pode ver por trás, as
omoplatas prolongam-se até à cintura, onde se encontram, formando
um V perfeito. A estatueta é como uma obra arquitectónica que
estabelece relações rítmicas entre as suas diversas
partes: nalguns casos existe uma harmonia em termos de movimento,
noutros um contraste. Verifica-se, por exemplo, uma relação
de simetria que liga a cintura circular às costas triangulares e ao
pescoço
cilíndrico que suporta o belo penteado. A simetria e a harmonia testemunham
um corpo perfeitamente delineado e, por isso, superior.
A estatueta
fang estabelece assim um diálogo com a arte modernista – isto é,
com a arte do final do século XIX e início do século
XX, que se preocupava com as formas geométricas e a força física.
A estatueta apresenta também uma característica típica
do modernismo: cria contrastes entre estas formas geométricas, a fim
de definir o espaço. O rosto oval, com os seus traços finamente
delineados, é admirável, enquanto que o pescoço cilíndrico
liso é pouco relevante em termos estéticos, exceptuando o facto
de contribuir para revelar a sólida relação espacial
entre a cabeça e os ombros. É fácil perceber porque é que
artistas modernistas como Picasso e Braque tinham arte africana
nos seus ateliers, não só como inspiração, mas
também
como modelo.
O meu interesse pela assinatura do criador e pela
qualidade estética
da arte africana obriga-me a mencionar aqui a corrente artística denominada
primitivismo modernista como referência: os seus proponentes encontravam-se
entre os primeiros admiradores das máscaras e estatuetas africanas.
Mas, enquanto que eu saliento o lado estético e autoral, os críticos
do modernismo sublinham o importante papel da arte africana em
movimentos vanguardistas, como o expressionismo, o fauvismo,
o cubismo e o surrealismo.
De acordo com Meyer Schapiro, o modernismo
primitivista interessou-se pelas máscaras e estatuetas africanas,
porque se acreditava que elas “representavam
a nova valorização do instintivo, do natural e do mítico
como como sendo essencialmente humanos. O facto de se tratar
de uma arte de povos primitivos, sem uma História escrita, tornava-as
ainda mais atractivas. Granjearam o prestígio especial concedido ao
intemporal e indistinto, a nível da actividade animal espontânea,
contida, não reflexiva, íntima, sem datas ou assinaturas, sem
origens ou consequências, para além das emoções” (Schapiro,
1978: 200-201).
Rosalind Krauss, pelo contrário, vê na representação
do primitivo um “ritual de transgressão” e, por conseguinte,
uma teoria da arte moderna. Com base na noção de alteração
de Georges Bataille, Krauss afirma que a arte primitiva ilustra as contradições
no interior da linguagem – a transgressão dos sentidos que a
razão humana insiste serem inequivocos, unívocos, mas que as
próprias palavras mostram ser irresoluvelmente ambíguos. De
acordo com Krauss e com muitos historiadores modernistas, a concepção
do primitivo como teoria acerca da nossa condição actual tornou-se
um poderoso instrumento modelador e uma forma de repensar integralmente as
ciências humanas. E não se trata apenas de um fenómeno
histórico, uma vez que surge nas obras de autores como Foucault, Lacan,
Derrida e seus seguidores (Krauss, 1984).
Estas concepções sobre o modernismo primitivista permitem concluir
que a arte africana e os próprios africanos só adquirem interesse
para o Ocidente se forem capazes de fornecer uma teoria sobre a maneira como
o Ocidente se vê a si mesmo – ou, por outras palavras, se conseguirem
ser primitivos de um modo intemporal, constituindo assim uma excepção à narrativa
teleológica ocidental. Duas exposições amplamente comentadas,
que tiveram lugar na cidade de Nova Iorque – a mostra intitulada “Primitivismo” organizada
pelo Museum of Modern Art em 1984 e a mostra intitulada “African Art” organizada
pelo Museu Guggenheim em 1996 – basearam-se neste tipo de abordagem
ahistórica da arte africana. Os objectos expostos só eram considerados
importantes se apresentassem alguma semelhança com a arte modernista
de finais do século XIX, princípios do século XX, se
tivessem exercido alguma influência sobre ela ou causado alguma impressão
nos artistas ocidentais. Como disse William Rubin, a arte africana foi valorizada,
porque tinha “uma força expressiva que se julgava ausente nas
fases finais do realismo ocidental, que alguns dos artistas vanguardistas
do final do século XIX consideraram demasiado atenuado e sem chama” (Rubin,
1984: 2).
Em qualquer destas considerações sobre o modernismo primitivista,
o artista africano permanece invisível. Os louvores vão para
os artistas ocidentais por terem descoberto no modernismo primitivista uma
saída para o que José Ortega y Gasset apelidou de efeito “desumanizador” da
industrialização nas artes. Enquanto a qualidade estética
das estatuetas e máscaras africanas ajudava supostamente os artistas
modernistas a contrariar a alienação do indivíduo no
modernismo industrial, o papel dos artistas africanos na criação
dessas máscaras e estatuetas é silenciado e as intenções
estéticas dos artistas são desvalorizadas em prol da função
ritual dos objectos. O que é enfatizado tanto no modernismo primitivista,
como nas estatuetas e máscaras é a sua capacidade de redenção
do indivíduo no interior da comunidade – ou seja, a capacidade
de transformar a arte em ritual e o ritual em arte. Ambos salientam simultaneamente
o belo e o feio, o exótico e o comum, o tradicional e o inovador.
Rubin observa que o povo dan da Costa do Marfim “não só apreciava
explicitamente a diversidade [das suas máscaras], mas também
reconhecia o valor de uma certa originalidade” (3).
Porém, apesar de estarmos bastante bem informados sobre a razão
por que alguns modernistas como Picasso, Nolde e Kandinsky favoreceram o
espírito inventivo e a multiplicidade na sua arte, estamos menos dispostos
a conceder um temperamento artístico aos escultores africanos. É esta
a razão que leva Rubin a rejeitar de forma arrogante a maioria das
peças africanas da colecção de Picasso, devido à “fraca
qualidade do seu trabalho de escultura”: tratar-se-ia de “obras
não autênticas, ‘para turistas’”, feitas por “artistas
tribais, mais para venda, do que para fins rituais” (14). O facto de
o próprio Picasso ter feito numerosos trabalhos en série especificamente
para o mercado não tem, por contraste, repercussões no seu
valor estético. É óbvio que, para Rubin, tal como para
muitos outros críticos, a produção dirigida ao mercado
aponta para uma separação entre os artistas africanos e as
suas obras, o que facilita a utilização dessas obras pelos
artistas e o universo artístico europeu.
Ao valorizar as estatuetas e máscaras africanas como inspiradoras
do seu movimento artístico, os modernistas primitivistas, congelaram-nas
no tempo. Simultaneamente, criticaram nas obras de artistas africanos, o
espírito inventivo e a diversidade, responsáveis pela sua originalidade.
Rubin elogia e censura a arte africana, quando encontra vestígios
do estilo modernista na variedade das máscaras dan, ao mesmo tempo
que despreza os escultores africanos por alimentarem o mercado turístico.
A maioria dos artistas mundiais trabalham para satisfazer uma determinada
procura. O que me parece é que também o artista africano consegue
a inovação, dando resposta às exigências do mercado,
a mais importante das quais é actualmente o turismo. Contrariamente
a Picasso que coleccionava arte africana “não autêntica”,
feita para turistas, Rubin revela o seu menosprezo pela inovação
por parte dos artistas africanos, ao insistir na autenticidade ritual como
critério exclusivo para julgar as suas obras.
Marcel Griaule criticou este desejo de autenticidade na arte
africana, num importante artigo intitulado “Un coup de fusil”,
salientando “o absurdo de os os brancos declararem impuro um tambor
baule, com o pretexto de que está decorado com um homem empunhando
uma espingarda.” (Griaule, 1992: 41). Uma vez que a espingarda é considerada
uma arma europeia, a sua presença na arte africana prejudica a sua
autenticidade. Para Griaule, é o cúmulo do absurdo o facto
de “o outro lado recusar aos africanos o direito de ‘fazer arte’,
utilizando um motivo europeu, em primeiro lugar, por se tratar de um motivo
europeu – uma observação curiosa e um tanto auto-castradora – e,
em segundo lugar, por parecer ‘moderna’” (41). Quando os
artistas europeus se inspiram em África, isso não põe
em causa a originalidade da sua obra, enquanto que os artistas africanos
não se podem inspirar na Europa, sem serem considerados não
autênticos. Por outras palavras, se os artistas ocidentais podem representar a África
de uma forma exótica, porque é que os africanos não
podem também representar a Europa de uma forma exótica – ou
seja, com espingardas?
O que é certo é que, por mais absurda que possa parecer a
concepção de Rubin da arte africana autêntica, ela constitui
o critério segundo o qual essa arte continua a ser julgada. Artistas
africanos como Sidimé Laye têm de permanecer anónimos,
para que as suas obras tenham uma oportunidade no mercado “primitivo”.
Os pintores, escultores e mesmo alguns cineastas e músicos contemporâneos
africanos e da diáspora africana têm de aceitar o estereótipo
que os define como “primitivos”, para poderem ser considerados
artistas.
Este facto é muitas vezes obscurecido pela
caracterização da arte africana por parte do movimento da Negritude como
detentora de uma força vital. No seu famoso ensaio intitulado “L’esprit
de la civilisation ou les lois de la culture negro-africaine” (“O
espírito da civilização ou as leis da cultura negro-africana”),
Léopold Senghor está, sobretudo, interessado
na interpretação simbólica das imagens representada pelas
máscaras e estatuetas africanas. Ficou assim limitado pela sua leitura
da arte africana como sendo exclusivamente etnológica, ao tomar em conta
apenas a sua dimensão funcional na sociedade. Para Senghor, o ritmo
e o movimento na arte africana podem apenas ser entendidos em termos rituais – ou
seja, a participação colectiva de músicos, bailarinos,
anciãos e antepassados nas danças com máscaras. Num contexto
deste género, não é concebível que as máscaras
e estatuetas tenham uma identidade autónoma como obra de arte. Senghor
não se apercebe de que a cor e a simetria da obra podem testemunhar
as preocupações do artista com o espaço e o tempo.
A estatueta fang acima analisada é uma escultura moderna clássica
que tem mais afinidades textuais com as Demoiselles d’Avignon de
Picasso, ou com o Ulisses de James Joyce do que com textos etnológicos.
Contrariamente à opinião da Negritude de que a arte
africana só atinge a plenitude com a performance, esta estatueta tem
uma autonomia apenas desafiada pela assertividade de algumas das suas partes
constitutivas. Uma das características do texto moderno é a
sua tendência para a fragmentação – a capacidade
de os seus componentes formarem entidades narrativas independentes do todo.
Isto é evidente não só na pintura e escultura modernas,
em que diferentes partes de uma obra podem disputar a atenção
e a análise do observador, mas também em textos literários
como Ulisses, em que diversas personagens jogam com o espaço
e o tempo para fazer incidir em si as focalizações que se afastam
da narrativa principal.
Dos ombros para cima, a estatueta fang parece-se com o busto
de um faraó egípcio, com um penteado dinástico. Um outro
enigma narrativo torna-se evidente, quando se considera a estatueta como
um todo, com os seus olhos baixos, as mãos segurando uma tigela sob
o queixo e os joelhos flectidos. Qual é a acção aqui
denotada? Os olhos baixos sugerem que esta figura sagrada se prepara para
beber da tigela. Os joelhos flectidos corroboram esta narrativa, insinuando
a submissão da estatueta ao conteúdo da tigela: água,
leite ou alguma poção com poderes sobrenaturais. Desta perspectiva,
a tigela torna-se o ponto fulcral na interpretação da escultura,
obrigando todo o corpo a obedecer-lhe e criando no observador uma curiosidade
não satisfeita acerca do seu conteúdo e respectiva significação.
Também é possível interpretar a postura da estatueta
fang como um gesto de oferenda: a tigela e o seu conteúdo são
oferecidos a alguém ou a algo exterior ao campo ocupado pela escultura.
Desta perspectiva, os olhos baixos e os joelhos flectidos significam
a submissão
da figura a uma entidade distinta, claramente numa posição
de poder – um deus, um rei, um público ou o artista. Uma das
qualidades da estatueta fang é a sua capacidade de criar, com o referido
gesto, um campo exterior tão prenhe de significado como aquilo que é representado
no campo por ela ocupado. Dada a inexistência de uma assinatura por
parte de um artista fang, o campo exterior é representado por artistas
ocidentais como Picasso e Braque que se apropriaram da posição
ideal de observador perante a arte africana.
Ao inscrever na configuração da estatueta um público
exterior ao campo por ela ocupado ou uma relação entre a estatueta
e uma presença invisível, o escultor estava a antecipar uma
avaliação estética do objecto pelo seu observador. É verdade
que a maioria das imagens sagradas fang parecem estar em comunicação
com uma presença invisível. Muitas estatuetas fang, como a
que se analisa aqui, parecem oferecer uma tigela a essa presença,
outras oferecem um chifre em vez da tigela ou brandem uma faca na mão
direita, como se estivessem prontas para o ataque. Poucas têm os braços
caídos ao longo do corpo. A intensidade da energia de todas elas parece
indicar tanto submissão como resistência. As que apresentam
olhos abertos e rangem os dentes dão a impressão de preferir
atacar o poder, dando as ordens, do que executar os seus ditames. As que
têm olhos baixos e uma tigela ou um chifre nas mãos, como esta,
patenteiam uma energia “negativa” que define o modo como resistem à submissão.
Os seus rostos e músculos tensos corporizam atitudes contraditórias
de submissão e resistência, docilidade e revolta.
Entre os cronistas coloniais, as tribos fang tinham fama de serem
canibais. Os traços estéticos das suas figuras sagradas – o
olhar fixo, os dentes afiados, os punhos agarrando facas ferrugentas, as
testas lisas e proeminentes, simbolizando os crânios dos seus antepassados – foram
usados como prova dos seus ritos canibalísticos. Mas, como demonstrei,
a resistência implícita nos gestos das estatuetas e a sua aparente
docilidade, mesmo quando brandem uma faca, contradizem o discurso etnológico
que aponta os fang como agressivos e canibais. Isto não significa
que queiramos negar que os fang eram canibais, ou afirmar que não
gostavam da guerra; pois, como diz Ouologuem, qual de nós pode afirmar
com toda a certeza que os dentes dele ou dela não estão tingidos
de vermelho pelo “tomate”? Qual de nós, europeu ou africano,
pode afirmar com toda a sinceridade que detesta a guerra? O que eu quero
dizer é que o discurso antropológico fixou a interpretação
das estatuetas, máscaras e tradições orais fang, da
mesma forma que fixou o sentido da vida e da arte noutras sociedades
africanas.
Torna-se, por isso, necessário retirar as figuras sagradas africanas
do seu espaço e da sua função rituais a fim de revelar
as marcas das mãos dos artistas que as criaram. A energia “negativa”,
a que eu chamei a qualidade de resistência das estatuetas fang constitui
a expressão da subversão por parte do escultor da sua função
ritual original. Por ser bela e discreta, em contraste com outras figuras
sagradas fang, com os seus órgãos exagerados, uma estatueta
como a que aqui foi analisada permite ao talento artístico do escultor
interferir na execução do ritual. Chama sobre si a atenção
e espelha a presença do artista num contexto exterior ao seu campo,
em vez de participar de modo submisso no ritual, seja ele de veneração
dos antepassados, seja de guerra ou de canibalismo.
Reagindo contra o confinamento das suas figuras sagradas aos
museus ocidentais, as elites africanas actuais invocam o papel
das estatuetas e máscaras nas cerimónias de culto originais, afirmando que,
sem esse contexto, perderiam o seu valor estético. Esta posição,
ao mesmo tempo que denuncia a pilhagem e a violação das tradições
africanas pelo Ocidente, impede qualquer discussão acerca da assinatura
de escultores individuais gravada nessas esculturas ou quaisquer considerações
sobre a verdadeira natureza da dívida de artistas modernistas como
Picasso para com os escultores africanos de finais do século XIX,
princípios do século XX. Como salientámos anteriormente,
a presença destas figuras sagradas nos estúdios dos artistas
europeus sugere algo mais que uma mera influência artística
ou a infusão da energia vital dos objectos religiosos na arte ocidental.
As linhas geométricas e as formas abstractas das estatuetas e máscaras
fang, dan e dogon constituíram a base de um grande número de
revoluções artísticas modernas.
Para além de testemunharem relações e influências
inter-étnicas, os escultores africanos devem ter tentado, nos seus
contactos com negociantes de escravos europeus e expedições
coloniais, ultrapassar a estética e as convenções dos
rituais locais. Escusado será dizer que as esculturas africanas patenteiam
as numerosas mudanças ocorridas em África ao longo dos séculos,
desde o início do tráfico de escravos até hoje. O documentário
de Jean Rouch Les maîtres fous (1955) apresenta exemplos óbvios:
as figuras sagradas sobre um altar e os participantes numa cerimónia
ritual destinam-se a representar os administradores coloniais; noutros casos,
as figuras sagradas empunham armas de fogo, conduzem bicicletas ou são
pintadas de branco com longos cabelos para representar homens brancos. O
que interessa é que estas obras sugerem a prontidão com que
os escultores africanos do início do século XX e os mais recentes
reflectem as transformações sociais na sua arte e cortam com
a tradição. Ao enfatizar apenas a autonomia e a autenticidade
tribal, o discurso da antropologia ocidental e os apologistas do colonialismo
ignoram a abertura do artista africano à mudança. Quando as
elites africanas insistem na ideia de que a arte africana não é arte,
porque foi retirada do seu contexto original, será que não
estão a interiorizar o estereótipo de si mesmas como um povo
com uma percepção funcional da arte? A meu ver, uma concepção
da crítica de arte que saliente as transformações estéticas
verificadas na história das esculturas e máscaras fang, dan
e dogon é mais importante do que uma que procure compreender os rituais
originais para os quais elas foram criadas. Ao acompanharmos essas transformações
estéticas, aprendemos mais sobre os artistas e as sociedades em que
viveram.
O retirar de uma obra de arte do seu contexto ritual original
coloca uma questão “benjaminiana” a que, em minha opinião,
a estatueta fang acima analisada pode dar uma resposta parcial. No famoso
ensaio “A obra de arte na era da sua reprodução técnica”,
Walter Benjamin defende que uma obra de arte encontra a sua expressão
ao serviço de um ritual, seja ele religioso ou mágico. Para
Benjamin, o objecto artístico perde a sua aura, quando divorciado
da sua prática ritual. Embora a teoria de Benjamin se refira à reprodução
mecânica de imagens – como a que existe na relação
entre uma impressão original e a sua fotocópia, entre o teatro
e o cinema, e entre outros objectos de arte e os meios capazes de os (re)produzir
industrialmente– ela é relevante para os temas aqui abordados.
A visão nostálgica que Benjamin tinha da arte, similar à visão
do herói e dos actos heróicos na literatura romântica,
assenta demasiado na tradição e nas suas concepções
de originalidade e autenticidade em detrimento da mudança e da inovação.
Tal como Benjamin, os coleccionadores e os marchands de arte africana,
e mesmo alguns artistas africanos, defendem que a autenticidade
e a originalidade são expressões da aura artística e insurgem-se contra
a reprodução de estatuetas e máscaras que reduz essa
aura.
Neste campo, aquilo que as obras de arte africanas conseguem
alcançar é a aura do artifício. Os seus escultores,
como Sidimé Laye, permitiram que as suas mãos obedecessem não
só à tradição, mas também ao seu amor
ao artifício. Por isso, pode dizer-se que subverteram a noção
de uma África imutável e o monopólio ocidental dos dogmas
universais acerca da modernidade. Se acompanharmos as transformações
na arte africana, descobrimos uma nova estética e uma aura artística
própria da sua história. Lembramo-nos dos artistas que a tradição
tentou tornar invisíveis: revelamos o papel do talento individual
na reformulação da tradição. E, por fim, descobrimos
artistas como Sidimé Laye e as suas assinaturas.
Este assunto reveste-se de alguma urgência. À medida que os
artistas africanos se afastam das práticas rituais e adicionam o artifício
ao valor do trabalho ritual, ficam expostos a tensões profundas. A
energia latente por detrás dos olhos baixos e dos braços erguidos
da estatueta fang é um exemplo de duas forças em conflito.
É neste sentido que a afirmação de Benjamin da superioridade
do original em relação à cópia revela as suas limitações
platónicas. Nem a quantidade das reproduções, nem a identidade
do objecto no seu contexto ritual constituem uma base suficientemente sólida
para uma análise estética. Para que o original e a cópia
pudessem manter a sua integridade, qualquer reprodução do original
teria de obedecer ao cânone e ser feia – isto é, indiferenciada.
A partir do momento em que o artista trabalha a cópia, arrisca-se a
subverter o original. A tradição tenta pois impedir a mudança
material e histórica, mantendo o artista anónimo e negando uma
identidade particular à cópia.
O artista africano é particularmente vulnerável à tirania
do ritual na tradição. Enquanto que no Ocidente a reprodução
mecânica da obra de arte ameaça a aura do artista individual
e o capital simbólico da obra, em África, a reprodução
de máscaras e estatuetas valoriza os escultores, concentrando a atenção
na assinatura do artista. É evidente não só que a assinatura
do artista contraria a noção de autenticidade do ritual tradicional
e as concepções dos coleccionadores ocidentais que tanto investiram
nos objectos ligados a esse ritual, mas também que ela constitui uma
condição para a emergência da modernidade africana e
do génio individual na tradição.
Chéri Samba: O estereótipo contra-ataca
No Verão de 1997, tive a oportunidade de ver uma exposição
das obras de Chéri Samba no Musée National des Arts d’Afrique
et d’ Océanie em Paris. Desde a realização da
exposição “Magiciens de la terre” realizada em
Paris em 1989, Chéri Samba – um pintor de Kinshasa – tinha
continuado a surpreender os ocidentais e a desafiar a imaginação
deles com as suas pinturas naïf. O timing da recente
exposição não poderia ter sido mais oportuno para ele,
para os seus clientes, para os marchands de arte e para o Musée
National des Arts d’ Afrique et d’ Océanie. Um dos meus
amigos cineastas disse-me, com alguma inveja, que ele se tinha tornado o
novo “chouchou de la ville” (“menino querido da cidade”).
Paris gaba-se de ser a capital da arte africana, à frente de Londres,
Tóquio e Nova Iorque e do seu papel como árbitro do bom gosto
em relação ao resto do mundo. O Musée National des Arts
d’ Afrique et d’ Océanie tinha montado em simultâneo
uma mostra imensa das artes tradicionais da Nigéria. A arte africana
estava também a ter sucesso na margem esquerda, com uma exposição
do trabalho de Ouatara na Galerie Boulakia, na rue Bonaparte, uma mostra
de máscaras e fotografia intitulada “Les Dogons” na rue
des Beaux Arts e numerosos artefactos à venda nos antiquários
da rue de la Seine. E isto independentemente do facto de os franceses terem
fechado as portas à imigração africana e de um dos temas
das pinturas narrativas de Chéri Samba ser constituído pela
imagem de africanos indesejáveis, desembarcando em aeroportos franceses.
Chéri Samba surgiu em Kinshasa como artista de rua, em finais dos
anos setenta, pintando cenas de mercado, prostitutas e caricaturas do poder
e da corrupção. Em 1982, Ngangura Mweze realizou uma curta
metragem, Kin Kiesé (Kinshasa, a Bela), na qual
usou Chéri Samba e as suas obras a fim de revelar as cores contraditórias
da cidade. A música de Papa Wemba, outro ícone da cultura popular
de Kinshasa, foi também utilizada no filme.
Com efeito, artistas de rua como Chéri Samba abundam em cidades como
Dakar, Lagos e Kinshasa. Baseando a sua arte nos faits divers da
modernidade e no seu impacto humorístico na vida quotidiana em África,
estes pintores combinam uma modalidade de prosa narrativa com imagens acessíveis
a um vasto público. Os quadros de Chéri Samba incorporam palavras
lingala e do francês coloquial. Tal como os signos usados na publicidade,
combinam e multiplicam os significados através de alusões e
trocadilhos. Por exemplo, um termo popular como conjoncture significa
simultaneamente crise económica, apertar o cinto e ser expedito. O
público destes quadros é composto pela elite africana e por
turistas e antropólogos em busca do mot juste e da imagem
certa para descrever África. É também importante distinguir
os artistas populares africanos, influenciados pelas técnicas narrativas
da banda desenhada, dos cartazes de cinema e dos cartoons dos artistas
com formação académica, que querem desenvolver o seu
trabalho dentro dos cânones modernistas e pós-modernistas.
A arte de Chéri Samba e em especial as pinturas incluídas na
exposição de 1997 encerram em si o segredo de como ele chegou
ao topo e se tornou o mais popular artista africano. Em primeiro lugar, refira-se
que, para o Musée des Arts d’ Afrique e d’ Océanie,
a arte africana consistira anteriormente apenas nas máscaras, estatuetas
e no batik tradicional. Chéri Samba foi o primeiro artista
africano “moderno” a ter uma sala do museu devotada à sua
arte. Mesmo assim, era preciso percorrer o segundo piso e atravessar uma
exposição surpreendente e de enorme interesse de máscaras
e estatuetas nigerianas antes de chegar à sala de Chéri Samba.
As 276 peças da referida exposição nigeriana incluíam
algumas das mais belas máscaras igbo que eu alguma vez vi, bem como
esculturas e máscaras do Benim, yoruba e ogoni. A mera dimensão
e qualidade da exposição fez-nos entender a razão por
que algumas pessoas consideraram inadequada a exposição sobre África
realizada no museu Guggenheim em 1996.
Não pude deixar de levar comigo as impressões causadas pela
arte nigeriana primitiva para a sala da exposição de Chéri
Samba. Sempre me parecera que a arte africana moderna não tinha nada
que se equiparasse ao simbolismo belo, aterrador e abstracto
da arte tribal nigeriana; os artistas modernos limitavam-se a representar
para o Ocidente aquilo que pensavam estar dentro dos limites da bienséance e
da verosimilhança ocidentais. Mas, quando entrei na sala de Chéri
Samba, fiquei satisfeito por perceber que a sua arte se ocupava das mesmas
questões de poder, medo, moralidade e sexualidade explícita
representadas na arte tribal nigeriana.
A sala dedicada a Chéri Samba era berrante e quente, com vermelhos
e amarelos, contrastando com os verdes vivificantes, os azuis marinhos e
os roxos florais. Vi-me transportado para África através destas
cores fortes e a preponderância das suas múltiplas e exóticas
associações. Os seres humanos eram representados num tom de
chocolate tão escuro, que pareciam derreter sob a luz. E disse para
mim mesmo: este indivíduo representa o estereótipo que contra-ataca.
Chéri Samba é o Amos Tutuola da arte africana. Desde que Tutuola
escreveu The Palm-Wine Drinkard, a sua história fantástica
sobre o submundo, nenhum outro artista africano abordou de modo tão
intenso e perspicaz o estereótipo africano, como Chéri Samba.
Faz todo o sentido que o trabalho de Chéri Samba tenha sido exposto
lado a lado com as máscaras e estatuetas tradicionais africanas. Uma
das chaves do sucesso de Chéri Samba é a sua apropriação
e afirmação do estereótipo da África no imaginário
actual. O trabalho de Chéri Samba insere-se em conceitos tribais como
o da feitiçaria, o da veneração dos antepassados e o
da magia. Em L’espoir fait vivre (A esperança faz
viver), 1989, um quadro sobre a história do seu sucesso, Samba
esclarece que conseguiu chegar ao topo, sem recorrer à feitiçaria,
unicamente através de muito trabalho, paciência e a bênção
dos antepassados. O quadro Autoportrait (Auto-retrato) é também
sobre a criatividade. Chéri Samba diz aos seus rivais e àqueles
artistas que o acusam de lhes ter rogado uma praga que o seu sucesso se deve
não a pragas ou a feitiços, mas sim a uma vida simples e a
um trabalho árduo.
Mas é óbvio que Chéri Samba não é um artista
simples. Levanta a questão da feitiçaria nas suas obras não
apenas porque no Zaire contemporâneo o poder está indissociavelmente
ligado à feitiçaria, mas também porque a feitiçaria
se enquadra na ideia que o Ocidente faz de África. Esta é,
a meu ver, a razão por que a obra de Chéri Samba exerce um
fascínio que é ao mesmo tempo local e internacional. “Não
sou um feiticeiro” diz ele. No entanto, nos seus quadros, ele aparece
com uma dimensão desmesurada, gabando-se do seu poder. Aos olhos ocidentais,
parece estereotipado e literal. No entanto, todos os seus quadros são
reflexivos e narrados de uma perspectiva frequentemente arrogante.
No quadro intitulado Homage aux anciens créateurs (Homenagem aos
antigos criadores), 1995, pinta um grande retrato seu atrás de
estatuetas tribais sobre uma mesa. O retrato parece reapropriar-se das máscaras
e estatuetas actualmente encerradas num museu suíço em Zurique.
Chéri Samba critica o museu por isolar os objectos que ainda mantêm
os seus poderes sobrenaturais, de pessoas como ele que são reincarnações
dos escultores tribais.
A estratégia de Chéri Samba inclui também a apropriação
do artista do seu próprio trabalho. O quadro Agriculteur sans
cerveau (Agricultor sem cérebro, 1990) mostra um plantador
de bananas, apoiando-se na sua enxada, com as mãos e pés atados.
Está ladeado por duas bananeiras carregadas de bananas maduras e tem
na mão uma banana meio descascada que não consegue comer. Atrás
dele encontra-se o homem com quem assinou um contrato; o homem afasta-se,
comendo as bananas do plantador. Chéri Samba aconselha o plantador
descontente a ler atentamente o contrato e não a atribuir as culpas
a esse homem. Esta metáfora da exploração é abordada
por Chéri Samba em diversos quadros. Em Oreilles au ventre (Orelhas
no ventre 1991), é o artista que está faminto, enquanto
que o negociante tem uma grande barriga com orelhas. No quadro Pourquoi
ai-je signé um contrat?, (Porque assinei um contrato?, 1990),
Chéri Samba, vestindo um elegante fato azul, está sentado num
sofá vermelho, à beira de um rochedo, com um cadeado em redor
dos joelhos e uma corda à volta do pescoço, puxada de um lado
e do outro pelos críticos, artistas, curadores, coleccionadores e marchands.
Neste caso, o artista afirma-se como vencedor, uma vez que o
contrato lhe parecia um passo necessário na sua carreira. Por isso, a corda e o
cadeado, bem como o fato azul e o sofá vermelho, constituem parte
integrante do seu estilo, e não constrangimentos que o alienam da
sua arte.
Finalmente, no quadro Une peinture à defendre (Uma pintura
a defender, 1993) – a meu ver, a obra prima de Chéri Samba – o
artista coloca a questão das relações entre a arte e
a política, utilizando a pintura como metáfora de África
que ele tem de defender. A composição testemunha a abordagem
reflexiva da arte adoptada por Chéri Samba que lhe granjeou o apoio
do público local e internacional. O espaço e o movimento são
delineados pela inserção de molduras dentro de molduras, pela
repetição de acções e pelos contrastes de cores
e gestos. O próprio Chéri Samba posiciona-se no centro, de
frente para o observador, com um pincel numa mão e uma lata de tinta
na outra. Em redor da cintura, tem uma corda vermelha que é puxada
por duas mãos do lado esquerdo; em redor da sua perna, tem uma corda
verde que é puxada por mais duas mãos do lado direito. Em primeiro
plano surgem dois homens, um com um casaco roxo e o outro com um casaco verde.
O homem de casaco roxo agarra o artista pela cintura e o de casaco verde
agarra-o por uma perna. Ambos dizem “tenho de defender esta pintura”.
Ao fundo vê-se uma pintura popular tradicional que o artista tenta
proteger dos assaltantes. Essa pintura mostra-nos uma mulher com um bebé às
costas; está a entrançar o cabelo de outra mulher. À sua
volta, vêem-se casas, uma criança tomando banho numa banheira
e uma carroça. Este quadro dentro do quadro tem a seguinte legenda: “Pintura
popular ekomi, uns anos mais tarde.” O pano de fundo desta cena atarefada
e bem iluminada consiste numa noite calma, com árvores ensombradas
por um céu escuro.
É evidente que Chéri Samba está antes de mais a comentar
a recente procura de que o seu trabalho tem sido alvo. Há poucos anos,
a sua obra era tida apenas como mais um exemplo de arte de rua em Kinshasa.
Agora, críticos brancos e marchands lutam para poder controlá-la.
Todos eles reivindicam direitos de propriedade sobre a obra de Chéri
Samba, forçando o artista a erguer-se e defendê-la com a sua vida.
Porém, para mim, o mais importante desta imagem é a forma como
articula a visão que o artista tem da sua pintura, que coincide com
a sua visão de África. Por outras palavras, Chéri Samba
considera que a sua pintura representa a África e propõe uma
acção militante para a sua reapropriação através
da arte. A mesma reflexividade perpassa toda a obra de Chéri Samba,
quer aborde a relação do plantador com o seu produto, a do artista
com a sua arte, ou dos africanos com África. No tríptico Grand
tort de la coloniation et grosse erreur de l’ Afrique indépendante (A
grande injustiça da colonização e o grave erro da África
independente, 1994), Chéri Samba representa a África pré-colonial
como paradisíaca e os colonizadores como homens gananciosos e ruins
que dividiram o continente entre eles, sem consideração pelas
relações de parentesco ou pela unidade tribal. O último
painel do tríptico mostra o erro dos “africanos independentes” que
não conseguem reconhecer que os estados-nação são
uma herança dos antigos colonizadores e que continuam a dividir grupos étnicos
e a criar uma falsa sensação de unidade entre o povo. A África
que Chéri Samba defende neste tríptico é a mesma que é defendida
na “Pintura popular ekomi” acima descrita. Trata-se de uma África
que está para além dos estados-nação,
mas que, no entanto, é também uma África estereotipada
e romântica, sem fronteiras nem história. Como sempre, Chéri
Samba é o último a rir: assinou um contrato e toda a gente se
preocupa com ele. Mas, quando finalmente o conseguimos encontrar, ele já está noutro
sítio.
A canção de resistência de Sidimé Laye
O temor que o pai de Sidimé Laye sentia em relação às
máscaras e estatuetas constitui um desejo de reprimi-las e de reprimir
as tendências pagãs que elas representam. No seu sonho, o pai
de Sidimé Laye entendeu claramente o perigo que a devolução
das máscaras à esfera pública poderia significar para
a ordem muçulmana. As regiões cristãs de África
continuam a ter receio da erupção da autoridade das máscaras
na vida quotidiana. Ao fim e ao cabo, o conflito religioso em África
não é entre o Islamismo e o Cristianismo, mas sim entre essas
duas religiões e as máscaras que dominam o inconsciente africano.
Daí que a escultura de máscaras só possa trazer problemas
a Sidimé Laye e a todos aqueles que se submetam ao seu poder, porque
a simples presença das máscaras no mundo actual constitui uma
prova do fracasso do Islamismo e do Cristianismo na conquista
da África
pagã.
A insistência de Sidimé Laye em esculpir máscaras e a
sua afirmação de que é possuído por elas, enquanto
trabalha, patenteia a resistência de tais formas tribais a ordens repressivas,
ditadas não só pelas religiões monoteístas, mas
também pelos regimes ditatoriais monolíticos.
Sidimé Laye continuou a esculpir máscaras, apesar do aviso
contido no sonho do seu pai, da morte do seu tio nas masmorras de Camp Boiro
e dos perigos que ele mesmo correu durante os anos de exílio. Será que
tentava resistir ao regime opressivo de Sékou Touré através
da criação prolífica de estatuetas e máscaras?
Como é que a presença das máscaras pôde constituir
uma ameaça à revolução de Sékou Touré?
Em retrospectiva, penso que a revolução teve uma actuação
demasiado dura para com as máscaras, estatuetas e tradições
orais. Deveriam ter sido colocadas num museu nacional, em vez de terem sido
banidas. A revolução deveria ter conseguido integrar os rituais
de máscaras e celebrá-los como expressão mais recente
da identidade nacional – ou seja, deveria tê-los trazido para
o centro da sociedade, para que todos pudessem participar neles, em lugar
de marginalizá-los como sendo sociedades secretas atrasadas. Esta
forma de valorização teria não só elevado os
rituais ao estatuto de cerimónia nacional, mas também transformado
a sua orientação avessa à modernização
numa orientação mais positiva e inclusiva. A maioria das tradições
sofre uma mudança com a abertura ao mundo exterior e a perspectiva
de um futuro. O modo como se tratou as máscaras, estatuetas e tradições
orais impediu que a revolução submetesse formas conservadoras
sociais e religiosas à abertura e à mudança.
Sidimé Laye abandonou a escola e esculpiu máscaras e estatuetas
durante a revolução, reforçando a resistência
das margens contra o centro. Neste sentido, a sua acção assemelhou-se à de
numerosos africanos cultos que desistiram da revolução, por
detectarem nela a falta dos ingredientes relativos às estruturas afectivas
tradicionais. Tornou-se um lugar-comum apontar a repressão das máscaras,
estatuetas e práticas tribais como exemplo do desprezo das concepções
revolucionárias pelo que é africano e autêntico. As formas
de reivindicação da tradição tornaram-se os símbolos
da resistência à tentativa de Sékou Touré de homogeneizar
a sociedade. Por exemplo, algumas pessoas da classe média começaram
a usar trajes de caçador feitos de tecido camuflado em público,
em vez do curto doloki de algodão branco popularizado por
Sékou Touré no início da revolução. As
máscaras, os dentes de elefante esculpidos e as estatuetas anteriormente
destinadas apenas à exportação para o estrangeiro passaram
a marcar presença nas salas de estar da classe média africana.
Com a era pós-colonial assistiu-se também a uma revalorização
da feitiçaria, da magia e dos amuletos como meios tradicionais de
protecção contra a revolução ou devoção
a Sékou Touré. Para mim, é difícil imaginar Sidimé Laye
como um feiticeiro ou um bruxo, anestesiando com a sua arte o efeito da revolução
nas pessoas.
A meu ver, a resistência da classe média à revolução
assemelha-se mais à sua relutância em apoiar os ventos democráticos
que sopram na África actual. Da última vez que estive na África
Ocidental, em Janeiro de 1997, tive uma conversa interessante sobre as democracias
africanas com um colega senegalês, a que aqui chamarei Clarence Delgado.
Eu lamentava o erro do regime do general Sani Abacha em enforcar o escritor
activista Ken Saro Wiwa e esperava que Delgado concordasse comigo. Em vez
disso, censurou-me por observar tudo através das lentes etnocêntricas
americanas. As pessoas na América, segundo disse, esperavam que todo
o mundo encarasse a vida à sua maneira e aceitasse a sua definição
de democracia, direitos humanos e cultura. Mas os africanos tinham uma forma
própria de fazer as coisas e tinham tradições e culturas
mais antigas que as americanas para os apoiar no seu comportamento. Delgado
referiu os impérios do Ghana, Mali e Songhai que tinham erigido civilizações
de relevância mundial muito antes do nascimento da nação
norte-americana. Quem eram os americanos, para pensar que tinham o direito
de dar ao mundo lições de democracia e direitos humanos? Na
opinião de Delgado, o principal erro do actual movimento democrático
em África era o facto de ser imposto pelo exterior. A democracia não
era um conceito africano; um excesso de liberdade conduziria necessariamente à desordem
e mesmo à anarquia. Ken Saro Wiwa, por exemplo: não mostrara
respeito pelo governo nigeriano, procurando constantemente denegri-lo perante
a comunidade internacional, as organizações de direitos humanos
e os ambientalistas. Como se sentiriam os americanos se os africanos se imiscuíssem
nos seus assuntos internos, como o tratamento racista dado a Louis Farrakhan
e à sua Nação do Islão? Delgado disse que Ken
Saro Wiwa violara as leis do seu país, fora julgado e condenado à morte.
E a pena de morte existia não só na Nigéria, mas também
nos Estados Unidos da América.
Então e a exploração do povo nigeriano por empresas
petrolíferas como a Shell Oil – retorqui eu – uma situação
contra a qual Ken Saro Wiwa protestava? Delgado respondeu que a Shell era
uma multinacional inglesa, americana e francesa. Como podiam os americanos
considerar a Shell como uma marca doméstica e fazer da Nigéria
um estado párias? Disse a Delgado que ele estava a ignorar a responsabilidade
dos líderes africanos para com os seus povos, ao atirar as culpas
somente para cima do Ocidente. Que nós, os africanos, não podíamos
ter hesitações em relação à aceitação
dos valores democráticos fundamentais, tais como a participação
aberta nas eleições, a liberdade de expressão e o direito à educação
e a um ambiente seguro.
A meu ver, o facto de a globalização continuar a obliterar,
tal como os regimes totalitários, as diferenças culturais em
prol da hegemonia do mercado, justifica formas de vigilância e resistência
que nos levam a protestar contra o tratamento pouco democrático do
nosso povo. Além disso, seria demasiado fácil pôr de
parte a democracia e os sistemas multipartidários, sob o pretexto
de não serem africanos. Não podemos esquecer que também
não se trata de um conceito original norte-americano. Mas os americanos
fazem da luta por uma maior igualdade para com negros e outros povos vítimas
de opressão e discriminação o seu cavalo de batalha.
Os africanos têm também de aceitar a democracia como instrumento
para exigir um tratamento igual nas instituições mundiais e
nos sistemas de mercado e para eliminar as suas práticas arcaicas,
tais como a hegemonia de um partido único e a opressão da mulher
através da poligamia e da excisão do clítoris. Não
existem tradições que constituam uma justificação
credível para o bloqueamento da nova vaga democrática em África.
Por fim, enquanto formas artísticas, as máscaras, estatuetas
e tradições orais colocaram outro tipo de exigência à revolução.
Despoletaram sonhos e aspirações que a revolução
não soube satisfazer. Encorajaram as pessoas a identificar-se com
modelos pertencentes a um universo negado pela revolução e
desafiaram Sékou Touré a lidar com as necessidades e expectativas
do seu povo. As máscaras e estatuetas de Sidimé Laye estavam
a dizer a verdade à revolução: estavam a dizer que
as pessoas se sentiam mal em relação a ela e que o regime se
tinha virado contra a população. As máscaras e estatuetas
do artista foram banidas, porque a sua mera presença no estado-nação
constituía uma crítica implícita ao regime. Encaradas
como uma forma de arte que desafiava a repressão perpetrada pela revolução,
as máscaras, estatuetas e tradições orais patenteavam
uma energia e uma magia novas, que davam poder às pessoas contra os
seus opressores. Neste sentido, a resistência tornou-se um ritual transformador,
uma renovação da revolução por meio destas energias
positivas.
Além disso, escapar à revolução de Sékou
Touré foi uma outra forma de escapar ao século XX e às
suas manifestações de inépcia, crueldade e sofrimento
humano. Não podemos ser complacentes para com as principais questões
que têm caracterizado as relações de poder no século
XX. À medida que o novo século se aproxima, precisamos de forjar
novas linguagens e métodos que substituam a descolonização,
a alienação, a opressão racial, o primitivismo, o afro-pessimismo,
a francofonia, o tribalismo, o nacionalismo tacanho, a desconstrução
e outras abordagens pós-estruturalistas de África e da diáspora
negra. Não podemos entrar no novo milénio tão mal preparados
como estavam os nossos antecessores aquando da transição do
colonialismo para a independência. Muitos deles nunca se aperceberam
sequer de que o homem branco tinha ido embora. Consequentemente, não
souberam fazer as mudanças indispensáveis à sua transformação
em cidadãos autónomos.
Os soninke do império do Ghana experimentaram no final do século
VI a mesma desgraça e o mesmo anseio por mudança que os africanos
sentem actualmente. Um homem, o príncipe Gassire, era mais impaciente
que os outros. De acordo com a lenda, o seu desejo de mudança era
tão forte como se um chacal estivesse constantemente a morder-lhe
o coração. Nesse tempo, a guerra fazia parte do dia a dia.
Todos os dias, Gassire saía para o campo de batalha e matava cinquenta
homens sem a ajuda de ninguém. Era o guerreiro mais forte e corajoso
do império. À noite, os outros guerreiros elogiavam-no pela
sua coragem e força. Mas Gassire estava sempre insatisfeito. Interrogava-se
sobre quando o seu pai iria morrer e legar-lhe a coroa. O rei, porém,
recusava-se a morrer. Gassire estava cada vez mais velho. Tinha agora sete
filhos que o acompanhavam no campo de batalha. Também eles se tinham
tornado guerreiros corajosos e estavam cada vez mais velhos.
Mas o rei continuava vivo.
Um dia, Gassire foi visitar um velho sábio que vivia às portas
de Wagadu, a capital do Ghana. Explicou o seu problema ao sábio, que
era uma espécie de profeta, dizendo que estava cansado de lutar e
de matar e queria que o seu pai morresse para poder ser rei. Depois de pensar
sobre o problema, o sábio informou Gassire de que o seu pai não
iria morrer nos tempos mais próximos. Teria de escolher entre ser
guerreiro por toda a vida ou mudar o seu mundo. “Mas como?” perguntou
Gassire. O sábio disse-lhe para arranjar um ngoni, instrumento
parecido com um alaúde, e tocar. Ao princípio, Gassire ficou
zangado com o sábio, por ele não ter conseguido prever o seu
futuro como rei. Estava desapontado, porque queria muito suceder
ao seu pai.
Gassire foi então a um ferreiro e pediu-lhe para fazer um ngoni.
Quando o instrumento ficou pronto, experimentou tocá-lo, mas o ngoni não
produziu qualquer som. Gassire ficou zangado. Foi ter novamente com o sábio
e disse: “Escuta, sábio, o ngoni não canta!” O
sábio retorquiu: “Tens de tocá-lo com o coração.
O ngoni não consegue cantar sem o coração.”
Gassire voltou à sua rotina de lutar e matar inimigos – cinquenta
por dia. Os seus filhos morreram um a um no campo de batalha.
De todas as vezes, Gassire chorou e carregou o filho para casa. De todas
as vezes, o sangue da vítima pingou sobre o ngoni. Após
a morte do seu sétimo filho, Gassire perdeu a vontade de combater.
No entanto, na manhã seguinte, levantou-se cedo para ir para a guerra.
Pelo caminho, viu um papagaio empoleirado num baobá a cantar. Gassire
parou e ficou a ouvir as canções do papagaio, que eram sobre
a guerra e os heróis que nela tinham combatido há milhares
de anos, sobre amantes cujas histórias se haviam mantido vivas muito
depois da sua morte, e sobre os feitos de revolucionários que tinham
construído
grandes sociedades e culturas que lhes tinham sobrevivido.
Então, Gassire tirou o seu ngoni da bolsa de pele de cabra
e começou a tocar e a cantar. O que ele cantava era um elogio a si
e ao império do Ghana. Nesse preciso momento, deu-se conta da sua
imortalidade e da imortalidade do Ghana. A sua história perduraria
nas suas canções e nos corações das pessoas muito
para lá da sua morte.
Compreendo o que Sidimé Laye quer dizer, quando afirma que as máscaras,
estatuetas e tradições orais representam melhor a África
no estrangeiro do que os intelectuais e os políticos. A arte é eterna,
enquanto que homens e mulheres nascem e morrem. A arte transcende a história,
enquanto que homens e mulheres estão presos às paixões
momentâneas. A arte torna visível a necessidade de mudança
e transformação social. É por isso que Sidimé Laye,
como Gassire, acredita na arte como redenção, acredita na arte
como uma saída possível para a inépcia do século
XX e para a revolução de Sekou Touré.
Entre os mande, existe uma canção popular intitulada “Baninde” que
significa estar disposto a dizer não à opressão, a recusá-la
categoricamente, a desafiar o opressor. As mulheres griot cantam essa canção
para exortar os jovens a resistir à injustiça, seguindo o exemplo
dos seus antepassados, a fim de transformar o mundo num lugar melhor. A canção
vai repetindo o refrão “Ban ye dunya la dyala” (“A
resistência traz alegria ao mundo”), seguido pelos nomes dos
heróis cuja resistência fez com que a vida dos africanos mudasse
para melhor. Uma versão moderna da canção poderia ser
assim: “Diz não! Martin Luther King disse não! E trouxe
alegria ao mundo. Diz não! Malcolm X disse não! E trouxe alegria
ao mundo. Diz não! Mandela disse não! E trouxe alegria ao mundo.
Diz não! O povo africano disse não! E trouxe alegria ao mundo.
Diz não! As mulheres negras disseram não ao sexismo e ao racismo!
E trouxeram alegria ao mundo.”
Nas culturas mande valorizamos positivamente essa negação como
forma de resistência – como, por exemplo, quando Sékou
Touré disse não ao General De Gaule, transformando assim a
Guiné no primeiro país independente da África francófona;
ou quando Samory Touré disse não à penetração
colonial francesa, unindo a África Ocidental contra o racismo e o
fascismo europeus; ou quando Sundiata Kéita disse não a Sumanguru
Kante, levando à criação do Império do Mali;
ou quando as mulheres do Mali disseram não à ditadura de Moussa
Traoré, criando as bases para a ascensão da democracia nesse
país. Eu digo a mim mesmo: Oxalá o resto do mundo se sinta
inspirado por estes actos heróicos. Sidimé Laye deu-me sabedoria,
com a sua arte vigilante e frágil.
Textos citados:
Achebe, Chinua. 1984. Things Fall Apart. New York: Fawcett. Orig.
pub. 1958.
Benjamin, Walter. 1969. “The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction.” In
Benjamin, Illuminations. Trans. Harry Zohn. New York: Schocken.
De Roux, Emmanuel. 1996.”Paris, nouvelle capitale européene
des arts primitifs.” Le Monde, june 23-24.
Griaule, Marcel. 1992. “Gunshot.” in October, 60 (Spring):
40-41.
Krauss, Rosalind. 1984. “Giacometti”. In William Rubin, ed., “Primitivism” in
Twentieth-Century Art: Affinity of the Tribal and the Modern. New York:
Museum of Modern Art.
Rubin, William, ed. 1984. “Primitivism” in Twentieth-Century
Art: Affinity of the Tribal and the Modern. 2 vols. New York: Museum
of Modern Art.
Schapiro, Meyer. 1978. Modern Art: Nineteenth and Twentieth Centuries. New
York: Braziller.
Nascido no Mali, Manthia Diawara é professor de Literatura Comparada
e de Cinema na Universidade de Nova Iorque, onde dirige igualmente
o Africana Studies Center e o Instituto
de Assuntos Afro-Americanos. É fundador e editor da
revista Black Renaissance / Renaissance Noire.
Tem inúmeros artigos publicados sobre a diáspora negra e o
cinema negro nos EUA, África e Europa. É ainda autor dos livros
We Won't Budge: An African Exile in the World (2003), In Search of Africa
(1998) – de onde o presente texto foi extraído – entre
outros.
Dos filmes que realizou mencione-se Who’s Afraid of Ngugi? (2007),
Conakry Kas (2003), Bamako Sigi Kan (2002), Diaspora Conversation
(2000), In Search of Africa (1999), Rouch in Reverse (1995).
Manthia Diawara dirigiu ainda recentemente um documentário sobre Maison
Tropicale de Ângela
Ferreira, a estrear em Março de 2008.
Tradução do capítulo original (“Africa’s
Art of Resistance”), publicado no livro In Search of Africa,
Cambridge, MA and London, Eng.: Harvard University Press, 174-212.
© Harvard University Press
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