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A diáspora como objecto
John Peffer
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A
entrada espectacular de Barthélémy Toguo na Bienal da Arte
Africana Contemporânea Dak’art 1998 apresentava simultaneamente
a marca de uma abordagem à materialidade e ao conceito de África,
que tem insuflado uma nova vida à cena artística internacional.
Uma modesta escultura em madeira, portátil, com o tamanho aproximado
de uma cadeira, ao jeito daquele género de objectos maravilhosos
que facilmente se incluíam na bagagem dos visitantes durante e
após a era colonial, e que pelas dimensões e pela técnica
correspondiam àquilo que os europeus poderiam considerar como sendo
arte. Mas o objecto de Toguo ridicularizava essa história (Fig.
1). No momento da inauguração o autor sentou-se em cima
do objecto e pôs-se a acariciar uma versão mais pequena que
aconchegava nos braços: a sua arte africana portátil assemelhava-se
mais a uma enorme rolha de champanhe francês do que a uma figura
de um altar dogon. Que estava ele a festejar (ou a fetichizar)? Na realidade,
tratava-se de uma divertida imitação de um carimbo de borracha
utilizado para autenticar as autorizações de residência
temporária em França, o tipo de autorização
altamente desejado pelos residentes das antigas colónias francesas
(mas que lhes era frequentemente recusado). Através da arte, Toguo
estava a reformular a carte de séjour como qualquer coisa
de pouco manejável – a oficial mas não menos arbitrária
barreira entre a terra-mãe do mundo colonial e a fantasmática
terra prometida da auto-suficiência económica, da fama e
da realização intelectual no Ocidente.
[1]
Um
dos métodos para compreender o significado de tal arte, característica
de um número crescente de artistas africanos contemporâneos
que vivem no estrangeiro, consiste em considerar a história dos
usos discursivos e da valorização estética da ideia
de uma diáspora africana em arte. Isto é importante pois
que aquilo a que se tem chamado “arte africana contemporânea”
pertence muitas vezes à diáspora. Como resultado desta história
de amálgamas, os artistas africanos actualmente na Europa e na
América, experimentando novas formas de diáspora, vivem
simultaneamente como um privilégio e como um fardo a sua crescente
visibilidade nas realizações de elite da arte internacional.
Muita da nova arte procura deslocar a diáspora de uma posição
de sujeito-que-fala para passar a ser um objecto-em-questão.
Detém assim a potencialidade de proporcionar uma visão crucial
da actual condição global. No entanto, tal visão
tem as suas próprias fronteiras internacionais.
O tema da diáspora
James
Clifford defendeu que pronunciar a palavra diáspora equivaleu a torná-la
um tipo específico de tema da história, um tema ainda não
inteiramente incluído nos discursos políticos do estado-nação.
[2].
A palavra diáspora vem-nos dos antigo gregos, para os quais
“diaspora” (dispersão, ou semear) estava associado a
ideias de migração e colonização na Ásia
Menor e no Mediterrâneo na Antiguidade, de 800 a 600 a.C. Na tradução
grega alexandrina do Septuaginto (Deuteronómio 28:25) a palavra designava
a dispersão dos judeus exilados da Palestina depois da conquista
babilónica e da destruição do Templo no ano de 586
A.C. como uma maldição: “Serás disperso por todos
os reinos da terra.”
[3]. Assim, a conotação
inicialmente positiva das sociedades que se disseminavam através
e entre diferentes geografias políticas e culturais transformou-se
num termo de opressão e de vitimização, em que o eu
é confinado dentro do território do outro. Na era moderna,
o termo tem sido usado como auto-descritivo pelas comunidades de arménios,
de sul-asiáticos, de palestinianos, de irlandeses, e de outros. Mais
notável é o caso das comunidades africanas no Novo Mundo posteriores
à era do tráfico esclavagista atlântico. Também
elas perfilharam decididamente a invocação bíblica
de Babilónia, deslocando o seu significado para uma palavra de código
designando o Ocidente ou a América, a nova terra do cativeiro, da
corrupção moral e da alienação.
[4]
É característico de muitas, mas não de todas as comunidades
em diáspora a existência de uma história comum de expulsão
violenta de uma terra-mãe, uma projecção histórica
de pureza e de intemporalidade sobre a terra-mãe, sonhos de reatar
com a terra-mãe e de lá regressar, um esforço colectivo
de assimilação no seio de culturas hostis, e marginalização,
muitas vezes prolongando-se por gerações, com base em alegadas
diferenças étnicas, religiosas ou raciais na nova pátria.
Para
muitos, a experiência comum de marginalização na nova
pátria sobrepõe-se a qualquer experiência de ligação
à terra-mãe. Para alguns, a história de ser tratado
como sendo “outro” no interior é talvez o aspecto mais
forte da identidade comum onde assenta a construção de uma
ideia de comunidade. Como Clifford observa: “As diásporas são
muitas vezes delimitadas e definidas contra as normas das nações-estado.”
[5]
Na peugada de Paul Gilroy, defende que o discurso da diáspora constrói
“esferas públicas alternativas, formas de consciência
e de solidariedade comunitária, que mantêm a identificação
fora do espaço/tempo nacional de modo a viver no interior, com uma
diferença.”
[6]
No contexto particular daquilo que Gilroy chama o “Atlântico
negro”, ligando a África à América do Norte,
às Caraíbas e à Grã-Bretanha, o termo “diáspora”
é um símbolo de “lutas políticas para definir
a comunidade local, como comunidade distinta, em contextos históricos
de deslocação.”
[7]
A
identificação com a terra de origem pode ser sede de ambivalência
para muitas comunidades em diáspora, para as quais o regresso em
sentido literal pode na realidade não ser desejável.
[8]
Talvez com as duas maiores excepções históricas do
movimento “Regresso a África” de Marcus Garvey e da colónia
americana da Libéria, o desenvolvimento de um mito colectivo sobre
a natureza da África e, especialmente a partir da década de
1960, a reinvenção de uma cultura afrocêntrica na diáspora
não conduziram a qualquer migração em larga escala
de pessoas (excepto como turistas) de regresso ao continente. Naturalmente,
a ambivalência afro-americana quanto à definição
de África como a sua pátria, enquanto oposta ao local das
suas raízes colectivas, não deve excluir um reforçado
e activo interesse pelas questões do continente africano. Mesmo assim,
após várias gerações de residência, e
mesmo de cidadania, e apesar da actual e dolorosa experiência de racismo
estrutural que vivem, os africanos do Novo Mundo na sua maior parte aspiram
aos mesmo valores da corrente dominante da cultura americana. Este aspecto
largamente partilhado de uma educação americana e de uma visão
do mundo comuns é eloquentemente evocado no vídeo a small
world… (2000), realizado em colaboração por Sanford
Bigger e Jennifer Zackin, que justapõe filmes mudos caseiros em super
8 de famílias judias e negras da classe média num loop
de 5 minutos e meio. As imagens das lições de piano, dos passeios
à Disneylândia, e das férias na praia parecem mundanamente
semelhantes e ocasionalmente trocam de lado no ecrã. Aquilo que é
retirado da vista, e fica fora deste enquadramento doméstico do quotidiano
americano como uma aspiração comum da classe média,
é a história política da marginalização
das duas comunidades.
[9]
É
também possível ler esta história em sentido inverso
uma vez que, como uma longa genealogia de comentadores tão diversos
como W.E.B. Du Bois e Robert Farris Thompson convincentemente demonstraram,
a própria cultura americana de massas é sob muitos aspectos
definida pela experiência afro-americana e foi criada em grande parte
pelas contribuições culturais afro-americanas. A medida da
repressão deste contributo na cultura dominante pode também
ter um papel definidor da experiência americana.
A África na América
Outro
tipo de ambivalência quanto ao local de origem é o que está
contido nas ideias primitivizantes e anacrónicas que reflectem mais
os preconceitos dominantes da nova pátria do que qualquer experiência
histórica real da terra-mãe idealizada. Especialmente no caso
de a migração histórica ter sido o resultado de uma
conquista da terra natal por uma força estrangeira, é comum
entre os elementos da diáspora a tendência para sentir o impulso
de melhorar a sorte dos seus compatriotas na terra-mãe considerados
mais atrasados. Sentem que a sua dramática passagem do velho mundo
ao novo, no centro da cultura do opressor, se traduziu numa nítida
melhoria em avanços práticos e em princípios morais,
e que é sua missão ajudar a civilizar tanto os seus irmãos
provincianos como os seus concidadãos.
[10]. No contexto americano, Alain Locke,
o principal teórico da Harlem Renaissance na década de 1920,
estava interessado em novas formas de criatividade agora possíveis
graças à matriz cosmopolita de africanos, antilheses e negros
americanos do Norte e do Sul que convergiam para Harlem, em Nova Iorque,
e para outros centros depois da Primeira Guerra Mundial. Locke reconheceu
que a crescente diferenciação de classes e de diferenças
culturais tornara mais difícil olhar o negro indiferenciadamente,
e que a maior experiência partilhada destes diferentes grupos consistia
em se descobrirem uns aos outros na metrópole. Era através
da “proscrição e do preconceito… [que] estes elementos
díspares [eram lançados] para uma área comum de contacto
e interacção.”
[11]
Esta
reunião de elementos díspares do mundo negro não era
um fenómeno cujos efeitos permanecessem isolados. Pelo contrário,
“tal como ao judeu”, dizia Locke, “a perseguição
está a tornar o negro internacional.”.
[12].
Um dos produtos deste novo cosmopolitismo da diáspora traduzia-se
numa crescente consciência “de actuar como uma guarda-avançada
dos povos africanos no seu contacto com a civilização do século
XX.”. [13]
Na opinião de Locke, a posição moral conquistada pelos
africanos da diáspora era uma situação que permitia
dominar os futuros acontecimentos no Novo Mundo, no Velho Mundo e em África.
Em
relação à diáspora negra na América,
Locke salientava em especial o papel da arte como uma espécie de
acção criativa de um acesso-a-uma-maior-autoconsciência
no seio da dupla consciência enunciada por Du Bois em The Souls
of Black Folk. Esta visão de Jano era o resultado de ver e viver
em dois mundos simultaneamente: o mundo africano e o americano, o mundo
dominante (branco) e o mundo massificado, marginalizado e estigmatizado
de uma minoria (negra). A arte, para Locke, tinha de compor os valores complexos
de um povo marginalizado operando ao mesmo tempo a partir do interior da
corrente dominante. Igualmente crítica era a caracterização
que Locke fazia do Harlem dos anos 20 como compreendendo já
uma espécie de dupla composição da diáspora
com outras diásporas no seu interior, incluindo africanos, caribenhos
e pessoas das regiões rurais do Sul. No período que antecedeu
a actual formulação da ideia de uma moderna diáspora
negra, o seu local de nascimento, Harlem, era já um terreno híbrido.
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Fig. 1 Carte de séjour, 1997, por Barthélémy Toguo.
Madeira, 40 x 40 x 70 cm. Fotografia: cedida pela Colecção Francis Mary, Bruxelas.
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Arte Africana Contemporânea e Diáspora
A
grande ironia dos modernistas africanos da geração anterior
reside talvez no facto de que foi a experiência de viverem em diáspora,
fora de África, que permitiu a muitos deles envolver-se tão
empenhadamente com imagens e ideias da história de África.
Isto devia-se, entre outras coisas, ao acesso que tinham a colecções
de arte da era colonial fora de África, ao encontro com outras diásporas
africanas num ambiente cosmopolita, e à experiência de uma
marginalização colectiva fora do continente. Provavelmente
o modernista africano mais famoso foi Alexander “Skunder” Boghossian,
que viveu em diáspora desde a década de 1960 até à
sua morte no princípio de 2003. Em 1955, Boghossian, que cresceu
na Etiópia e cujo pai era um arménio exilado, viajou para
Londres para estudar na Slate School of Fine Art. Posteriormente mudou-se
para Paris e estudou na École des Beaux Arts e na Grande Chaumière,
permanecendo nessa cidade durante os dez anos seguintes, a ensinar, a fazer
arte, e a absorver a vida cultural e política da década de
1960 em França. Boghossian conheceu aí novos artistas e pensadores
dos movimentos Negritude e Surrealismo e despertou para um interesse que
iria durar toda a sua vida pela arte etíope cristã e vernacular
depois de ver as colecções da Bibliothèque Nationale.
Regressou à Etópia em meados da década de 1960, mudando-se
depois na época da revolução para os Estados Unidos,
onde ensinou várias gerações de jovens artistas na
Universidade Howard, em Washington, D.C.
[14].
No entanto, apesar de ter vivido no estrangeiro durante quase quarenta anos, Boghossian raramente
é referido como um artista da diáspora ou como americano.
[15]
Pelo contrário, à semelhança
de outros expatriados da sua geração, como Ernest Mancoba,
Uzo Egonu, Gerard Sekoto, Ibrahim el Salahi, e Iba Ndiyae, a sua obra tem
sido habitualmente descrita como “arte africana contemporânea”.
Apesar de considerar que pode ter interesse incluir a obra de Boghossian
(e a obra daqueles artistas) nesta categoria, permitindo deste modo tornar
mais complexo o significado de “arte africana contemporânea”
como algo sem uma geografia fixa, acho que pode também ser compensador
analisá-la em termos de como ela se relaciona com a ideia de diáspora.
Ao
ser qualificado como artista etíope, Boghossian pode ser visto como
tendo sido um veículo, um portador e um conservador de cultura
passivo, alguém que transportou dentro de si as tradições
passadas do seu povo. Como um artista da diáspora, por outro lado,
Boghossian foi um intérprete activo e aglutinador do oceano
de símbolos culturais do passado, tal como os encontrou nas suas
viagens, para as gerações presente e futuras. Embora Boghossian
apreciasse o estatuto de artista etíope influente, os seus objectivos
artísticos eram a antítese do provincianismo. A arte dele
realçava aquilo que via como sendo a conexão essencial entre
toda a arte e música dos mundos culturais de África e da diáspora
no seio do fluxo de uma civilização mundial universal mais
vasta e mais abrangente.
[16]
Embora tenha sido
em Paris que Boghossian começou a estudar seriamente a história
da arte etíope, será que foi por ele próprio ser da
Etiópia que, quando esta arte era nova para ele, ela lhe surgiu como
algo familiar? Quando estudava em Paris, Boghossian estudava também
a própria cidade, a sua vida, o seu clima de debate intelectual e
estético. Em Paris estudava também a África, tanto
a sua própria herança etíope como a visão pan-africana
abraçada pelo movimento da Negritude.
[17]
Não terá sido precisamente a sua própria mobilidade
entre zonas culturais que espicaçou a perspicácia estética
de Boghossian? Como ele próprio disse uma vez: “Ninguém
é profeta na sua terra.”.
[18]
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Uma
ponta por onde se pode começar é o autógrafo do artista,
que Boghossian muitas vezes assinava com caracteres amáricos e
latinos – indubitavelmente um sinal de que ele assumia uma espécie
de subjectividade dividida que não andava longe da dupla consciência
que Du Bois há muito propusera. Ou considere-se, por exemplo, o
seu Cowboy USA (1972), feito depois da sua mudança definitiva
para os Estados Unidos e do seu envolvimento com intelectuais ligados
ao movimento Black Power (Fig. 2).
[19]
A imagem mostra São Jorge, herói cristão ortodoxo
oriental (e etíope) matando um dragão. Haverá nisto
um sinal da identificação de Boghossian com os famosos cowboys
e soldados negros mais tarde cantados por Bob Marley como uma referência
histórica dos revolucionários negros? Aqui, o dragão,
um símbolo eclesiástico do mal pagão e selvagem,
é americanizado com estrelas e barras semelhantes às da
bandeira americana, a substituir as escamas. Adoptando o estilo da pintura
tradicional etíope em pergaminho, a imagem está pintada
numa pele de tambor, retirada do respectivo instrumento, esticada como
que para curtir, e transformada numa insígnia ou num escudo, também
a fazer lembrar um artefacto nativo americano. O tema de um modo geral
é ameaçador, mas a pele de tambor foi atada a uma nova cercadura,
uma roda metálica de bicicleta, que acrescenta um ar de extravagância
à composição. Cowboy USA combina os papéis
do guerreiro simbólico, do curandeiro nativo, do xamã, do
herói mítico e do cruzado contra a injustiça na nova
Babilónia, numa reformulação de tudo o que é
mais poderoso na difusão das culturas do mundo.
Muitos
dos artistas da diáspora, como Boghossian, mostraram uma tendência
para repetir o espaço de África tal como se encontra disperso
no seio da civilização universal da humanidade, reorientando
assim as presunções universalistas do modernismo ocidental.
Pode tomar-se uma posição ainda mais radical, especialmente
em relação a artistas emigrados como Boghossian, e concordar
com Rasheed Araeen quando disse que para esta geração anterior
“o movimento de artistas da Ásia, da África e das
Caraíbas para o Ocidente era também não entre culturas
diferentes, mas um movimento dentro da mesma cultura definida e construída
pela modernidade”.
[20]
Araeen
afirma ainda que, tal como acontecia com os seus equivalentes modernistas
europeus como Pablo Picasso e Piet Mondrian, também eles emigrados
nas capitais culturais da sua época, “era essencial para
eles transgredir não apenas as culturas que tinham deixado, mas
também as sua experiências de exílio.”.
[21]
Assim, uma arte que mantém
o seu olhar simultaneamente sobre dois mundos não precisa de representar
meramente duas experiências diferentes de duas localizações
geográficas ou culturais diferentes, colocando-as lado a lado sem
dizer muito mais. Pode também ser crítica em relação
aos dois lados da moeda rotativa da identidade, sugerindo a sua íntima
(e muitas vezes dolorosa) fusão. O dilema da dupla visão
diaspórica pode ser uma posição desorientadora de
onde se façam exigências de carácter civilizacional
tanto à antiga terra de origem como à nova pátria.
A este propósito Araeen está muito próximo do espírito
político de Du Bois.
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Fig.
2 Cowboy, USA, 1972, por Skunder Boghossian.
Pintura a óleo sobre pele de tambor com cercadura metálica,
187 x 125 cm.
Colecção
The Studio Museum de Harlem, oferta do artista. Fotografia cedida por
The Studio Museum de Harlem. |
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Identidade? Vão passear
Está
muito bem viajar, mas uma das consequências incontornáveis
de nos deixarmos ir ou nos deixarmos perder é que nunca mais podemos
realmente voltar para casa como o mesmo “alguém” que
antes éramos. Durante a história da modernidade, a maior
parte das pessoas considerava a perda da “casa” uma tragédia;
hoje, a arte sugere que por vezes pode ser uma das pequenas necessidades
da vida.
[22]
A
arte dos artistas do século XX de ascendência africana que
tiveram um papel pioneiro criou um espaço visual de afirmação
subjectiva a partir do interior da dupla visão da diáspora.
De facto, essa arte deu forma plástica a esta dupla consciência.
A arte desses artistas era uma arte do gesto definidor de um lugar, como
a marca na tela vazia que permite ao pintor começar a sua composição.
Ao longo da década passada, uma geração mais nova
de artistas da diáspora africana, que atingiram a maturidade artística
na época a seguir à Guerra Fria, tem colhido aquilo que
foi semeado pelos seus predecessores – quer tenham ou não
consciência disso – e estão a pôr em questão
a própria base da subjectividade. O que é que mudou? Entre
outras coisas, o velho pensamento dicotómico sobre nós e
eles, eu e os outros, África e Ocidente, tornou-se mais difícil
de justificar em termos simples. Por outro lado, como Laura Bigman demonstrou,
a composição social das diásporas africanas recentemente
chegadas aos Estados Unidos, depois dos anos 70, tinha um carácter
diferente das primeiras formas de migração, quer forçada
quer voluntária.
[23]
Em
termos relativos, esta nova diáspora africana é muito mais
reduzida do que a constituída pelo tráfico esclavagista
atlântico, ainda que se tenha tornado altamente visível na
arena pública. Bigman mostra que os seus membros “pertenciam
tendencialmente a sectores mais abastados e cultos nas sociedades de origem,
em parte porque a lei americana funcionava como um filtro, seleccionando
aqueles que se revelavam mais susceptíveis de serem assimilados
pela sociedade americana.”.
[24]
A autora cita a Nigéria, a África do Sul, a Etiópia
e o Egipto como países onde os Estados Unidos têm interesses
estratégicos e onde o inglês é uma das línguas
oficiais – facilitando assim uma maior mobilidade entre países.
[25]
Estes emigrantes seguiam, inicialmente,
as passadas de muitos dos primeiros presidentes da África pós-independência
que tinham frequentado universidades nos Estados Unidos, como Nnamdi Azikiwe
e Kwame Nkrumah. Tencionando muitas vezes limitar-se a uma estada temporária,
para frequentar uma instituição de ensino nos Estados Unidos
e usar o diploma como um instrumento para um emprego de elite ao regressarem
ao país, muitos deles viram-se sem recursos, com poucas perspectivas
em África, quando foi retirado o grosso da ajuda exterior ao continente
depois de 1989, ao ser oficialmente declarado o fim da Guerra Fria. Muitos
destes elementos da diáspora são frequentemente críticos
da cena política nos seus países em África, que se
tornou progressivamente mais draconiana e tornou difícil o regresso
às suas famílias.
[26]
Não é mera coincidência
o facto de quatro dos principais países fornecedores de emigrantes
destacados por Bigman serem os mesmos cujos expatriados estão a
ser actualmente promovidos como a próxima vaga na arte africana
contemporânea.
Por
que enumerar estes áridos dados sociológicos? Porque, tendo
sugerido uma irónica história de relações
entre os modernistas da diáspora e a utilização que
fazem de imagens africanas, é também importante destrinçar
o contexto social de produção em que o actual grupo de artistas
africanos da diáspora está mergulhado. Como fenómeno
paralelo, como mudou a própria ideia de diáspora? Hoje em
dia, o conceito de diáspora pode ver-se como incluído entre
um conjunto de palavras-chavão, como fronteira, crioulização,
transculturação, hibridismo, e outras, todas elas tentando
descrever zonas de contacto intercultural e culturas transnacionais. Como
exemplo da disseminação desta terminologia no interior do
discurso popular e académico, Clifford cita a definição
móvel proposta na edição inaugural do jornal Diaspora:
“O termo que antes designava a dispersão judaica, grega e
arménia partilha o seu significado com um domínio semântico
mais vasto, que inclui palavras como imigrante, expatriado, refugiado,
trabalhador emigrante, comunidade exilada, comunidade ultramarina, comunidade
étnica…”.
[27]
Devido à crescente facilidade
de acesso às viagens aéreas e às telecomunicações,
lugares geograficamente separados podem hoje, de maneira mais completa
do que antes, estar envolvidos numa comunidade vital única: partes
de Nova Iorque, por exemplo, podem considerar-se uma continuação
da cultura transnacional das Caraíbas.
[28]
A ideia daquilo que é a diáspora tornou-se consequentente
mais difusa, e tem contaminado outros discursos.
Na
mesma medida em que as antigas e mais distantes conexões geográficas
vão sendo asseguradas, há múltiplas conexões
entre múltiplas histórias culturais que se vão combinando
de novas maneiras no seio dos lugares móveis das diásporas
de hoje. Entre os mais jovens membros das comunidades da diáspora,
as práticas culturais e as formas de auto-identificação
são mais cosmopolitas e têm uma inflexão mais globalizante
como nunca antes, especialmente para aqueles “cuja socialização
inicial se realizou no interior de correntes cruzadas de mais do que um
domínio cultural, e cujas actuais formas de expressão cultural
e de identidade são muitas vezes seleccionadas, sincretizadas e
elaboradas de forma auto-consciente a partir de mais do que uma herança
cultural.”.
[29]
Isto tornou-se em
parte possível, segundo Robin Cohen, porque, ao passo que anteriormente
a cidadania de uma pessoa nos estados modernos assumia precedência
legal sobre outras formas de filiação, nesta “era
da globalização” as obediências da diáspora
são mais abertas e mais aceitáveis.
[30]
Deverá notar-se no entanto que, enquanto parte de uma cultura internacional
de raiz ocidental, os artistas da diáspora muitas vezes relacionam-se
com a sua própria cultura histórica como se ela fosse “outra”,
primitivizando-a e tribalizando-a em termos que sejam “senso comum”
na nova pátria. Estes artistas estão aqui e agora
e em parte alguma. Estão temporalmente presentes e portanto
contemporâneos, mas estão espacialmente sempre em trânsito,
sem uma base, e duplamente alienados.
[31]
A
condição da diáspora, note-se, não é
característica apenas de grupos marginalizados ou das chamadas
comunidades de cor residentes no seio do Ocidente. É crucial sermos
claros quanto a este ponto, uma vez que a vasta maioria dos movimentos
populacionais internacionais durante toda a época moderna, apesar
da percepção popular em contrário, tem sido europeia.
Como nota Cohen:
"No
período entre 1500 e 1914 qualquer coisa como 60 a 65 milhões
de europeus participaram em migrações internacionais, comparados
com os cerca de 15 milhões de migrantes intercontinentais africanos
e asiáticos [incluindo a migração forçada
de africanos através do tráfico de escravos]. Mesmo no período
de 1945 a 1975, quando a Europa se tornou uma zona de destino importante,
o número daqueles que deixaram a Europa para irem para outros continentes
constituiu cerca de metade do total global de migrantes intercontinentais.
Esta centralidade é, naturalmente, algo irónica quando se
sabe que os movimentos nativistas e racistas que se multiplicaram nos
países europeus durante a década passada procuram representar
a Europa como um continente fora do tempo, estável, imperturbado,
ameaçado por hordas de imigrantes estrangeiros, especialmente os
de pele negra, castanha ou amarela.".
[32]
Não
é apenas “algo irónico”, naturalmente, que aqueles
cuja manifesta diferença, e cujo estatuto social como concorrência
económica, é tão prontamente denunciada pela cor
da pele, sejam escolhidos pelos neotradicionalistas e nativistas como
bodes expiatórios do seu próprio sentimento de desilusão
com o mundo moderno. Não foi a disseminação dos povos
e dos ideais culturais europeus durante a moderna expansão imperial
e colonial do ocidente que mostrou o caminho à posterior contra-resposta
de africanos, caribenhos e outros, vindos das ex-colónias para
o Ocidente? Ao contrário da presença colonial em África,
que procurava refazer o mundo impondo a dominação
política ocidental e revendo os costumes locais,
[33]
a resposta e o regresso dos súbditos ex-coloniais para o Ocidente
caracterizou-se sobretudo pela insinuação de outro
povo e de outras ideias a partir do interior.
[34]
Iain Chambers descreveu esta situação
como uma desestabilização da dicotomia colonial do nós
e eles: “De uma parte qualquer chegam os 'eles' que se recusam a
continuar 'eles', mas que ao mesmo tempo recusam tornar-se em 'nós'
simplesmente; ou seja, que se recusam quer a renegar as 'raízes'
ou 'rotas' que tornam um 'lá' também num 'cá'.
[35]
Exactamente
na mesma medida em que a viagem das linguagens visuais e verbais para
fora das fronteiras geográficas da Europa historicamente desprovincializaram
a Europa,[36]
a alteração
semântica dos códigos ocidentais alterou de modo permanente
tanto as ex-colónias como os antigos colonizadores, para o melhor
ou para o pior. A este propósito, Salman Rushdie observou provocatoriamente
que o Inglês, “já não uma língua inglesa,
cresce agora de muitas raízes; e aqueles que antes colonizou estão
a abrir no interior da língua vastos territórios para si
próprios.”.
[37]
Se
quisermos estender a diáspora até aos seus limites teóricos,
a condição pode ser lida inclusive como um testemunho visível
da própria condição humana universal. Dessa perspectiva,
o fenómeno social da diáspora, e a experiência da
marginalidade, são metáforas universais da configuração
psicológica do indivíduo, especialmente na crescentemente
dramática intersecção das culturas do mundo de hoje.
Esta abordagem baseia-se numa adaptação aos estudos pós-coloniais
de conceitos psicanalíticos lacanianos acerca da natureza dividida
da subjectividade humana, que é perpetuamente perdida numa viagem
de autodescoberta e de auto-invenção. Como Chambers escreve:
"O
sentimento do migrante de ser desenraizado, de viver entre mundos, entre
um passado perdido e um presente não integrado, é talvez
a metáfora que melhor se adapta a esta condição (pós)
moderna. Isto põe em relevo o tema da diáspora, não
só negra, mas também judaica, indiana, islâmica, palestiniana,
e conduz-nos ao processo pelo qual as margens anteriores agora se dobram
para o centro.".
[38]
Noutra
ocasião, Chambers desenvolve a ideia de que a arte é um
lugar potencialmente privilegiado para uma abertura no espírito
da diáspora das representações políticas e
sociais, especialmente dado o seu papel na desestabilização
e sequente reconstituição do significado das imagens de
todos os dias. É através da arte, afirma, que:
as
ideias sobre nós próprios, sobre a nossa democracia, a nossa
cidadania, a nossa identidade, são historicamente radicalizadas
e transmutadas em processos temporais. É aqui que elas se tornam
questões abertas e vulneráveis à jornada da interpretação,
à interrupção de uma interrogação corrente,
temporal… Qualquer narrativa… torna a história universal
que muitos de nós pensam viver, mais localizada, limitada, instável.
[39]
Duplo Privilégio e Duplo Fardo
Embora
seja importante ter presente esta visão profundamente metafórica
da condição da diáspora como uma espécie de
atitude crítica privilegiada, gostaria de contrapor que na prática
quotidiana é precisamente devido à sua visível diferença
racial que certas comunidades da diáspora continuam a ser responsabilizadas
por um desenraizamento social que de facto é largamente partilhado.
No seio do Ocidente, os membros da diáspora africana são
um testemunho visível permanente da actual condição
global (como o são outros do Terceiro Mundo), e como tal estão
numa situação de certo modo privilegiada para a representar,
no discurso político e social. Poderíamos ir mais longe
e dizer que se espera deles, por parte do público em geral,
incluindo os membros das suas próprias comunidades, que representem
– sirvam de ilustração, representem fisicamente, defendam
politicamente – a actual condição de globalização
e de pós-modernidade. Foi devido a este oneroso fardo racial de
auto-representação que Kobena Mercer e Paul Gilroy sugeriram,
no contexto da arte negra britânica, que a longa história
de expectativas em relação à “responsabilidade
social do artista (negro)” tem de ser posta em causa. Ao passo que
para Locke este fardo tradicional pesando sobre os artistas negros era
uma exigência, uma honra até, para Mercer e Gilroy este peso
representacional é visto mais como uma maldição:
continuamente a começar desde o início, e a representar
o mundo negro (da diáspora) como se fosse monolítico, na
sua totalidade, permanentemente.
[40]
Em
1999, um grupo seleccionado de jovens artistas africanos, todos com menos
de quarenta anos, foi convidado a participar numa série de exposições
e de simpósios sob o título de “Cry of My Birth”
no Art Institute de Chicago.
[41]
Os organizadores pretendiam que o evento abrisse novas maneiras de pensar
a África e a sua arte naquilo que eles baptizaram como esta “época
pós-geográfica”. Curiosamente, dos artistas incluídos
– Siemon Allen, Ghada Amer, Moshekwa Langa, Julie Meheretu, e Fatima
Tuggar – nenhum vivia em África há muitos anos. Confirmando
singularmente o estudo de Bigman, acima citado, dos quatro países
cujos naturais dispõem de maior aceitação no Ocidente,
os artistas de “Cry of My Birth” eram apresentados como sendo
“sul-africanos, egípcios, etíopes e nigerianos”,
mas não como membros da diáspora, quando na realidade todos
o eram. Trata-se de alguns dos melhores artistas hoje em actividade, e
a premissa da exposição era potencialmente desafiadora,
e no entanto… era representativa de uma vasta tendência nas
exposições de arte contemporânea africana, que se
repete crescentemente a partir de meados da década de 1990. Estas
exposições enquadram os artistas, por vezes apesar do manifesto
conteúdo dos seus trabalhos, dentro dos limites do discurso identitário.
[43]
E privilegiam os membros da diáspora como representantes de África.
As
críticas de Mercer e de Gilroy da representação negra
poderiam adaptar-se à prática do presente grupo de artistas
africanos contemporâneos. A arte deles é duplamente privilegiada
e duplamente sobrecarregada. A sua condição de transnacionais
dá-lhes um melhor acesso às estruturas internacionais de
formação e de exposição, e também vêem
em dois mundos, à maneira há muito proposta por Du Bois.
A visão do mundo que têm é assim privilegiada por
ser mais circunspecta. A sua visibilidade é também maior
do que a de muitos artistas residindo em África, uma vez que dispõem
de um melhor acesso às plataformas de exposição permitidas
pelo circuito (sobretudo orientado para o Ocidente) das bienais e das
exposições internacionais.
[44]
Ainda assim, têm de carregar um fardo por a entrada deles no mundo
da arte se fazer em grande parte sob condição de enunciarem
manifestamente, e literalmente, uma qualquer versão da sua identidade
africana na arte que produzem. Como resultado disso, carregam igualmente
o fardo das expectativas do público de que actuem através
da sua obra como interlocutores para toda a África, mesmo que eles
próprios tenham uma visão crítica sobre determinadas
situações no continente.
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Os Objectos da Diáspora
“O que agora se passa politicamente
é como um espelho daquilo que sempre se passou em mim próprio,
porque sou um híbrido do Ocidente e do Oriente”, diz Ghada
Amer, uma artista de 38 anos, nascida no Egipto, que viveu em França
desde os 11 anos e se mudou para Manhattan há quatro anos. “É
um choque de civilizações que manifestamente não
se compreendem uma à outra. Toda a minha vida vivi com essas
contradições.”… “Não quero que
vejam a minha obra como a obra de “o outro”, diz. “É
a coisa mais insultuosa que poderia acontecer.”
[45]
Uma
opinião partilhada por muitos artistas africanos da última
geração da diáspora – os que tiveram sucesso
no circuito artístico – é a de que a sua obra é
uma critica ao próprio fardo da representação,
que é também a condição da sua visibilidade.
A diáspora é o objecto da prática artísticadestes
artistas, o que está em questão e o material de construção,
mais do que uma estável posição de onde falar acerca
da sua perspectiva. O espaço aberto através da arte desta
nova diáspora é um espaço de questionamento, um
espaço onde é possível objectar contra as
concepções de identidade redutoras.
Ghada
Amer, uma artista cujas pinturas e instalações se situam
na vanguarda desta tendência, desafia decididamente tanto a moderna
versão fundamentalista do islão no seu país natal
(Egipto) como a noção essencialista mais global de “trabalho
de mulheres” (Figs. 3, 4). Amer recusa-se a desempenhar o papel
do “outro” para o seu público, ao mesmo tempo que
não questiona a existência do outro para além das
projecções eurocêntricas, como a duvidosa formulação
de Samuel Huntington de um pretenso “choque de civilizações”.
[46]
Em contrapartida afirma-se como
um “híbrido”, o único interlocutor possível
entre mundos, jogando assim nos dois tabuleiros. Amer está bem
consciente de como o estereótipo “artista muçulmana”
a ajudou a “conquistar um público”, mas tem também
consciência de que tal plataforma acaba por ser uma armadilha
– um jogo perigoso.
[47] Assim, invoca uma
posição estratégica, delimitando provisoriamente
o terreno intermédio da subjectividade, o que permitiu que o
seu trabalho artístico fosse uma crítica das construções
populares ocidentais e islâmicas/africanas sobre o género
e a sexualidade. Depois de ter vivido em Paris durante cerca de vinte
anos, Amer devia ser considerada uma artista francesa mais do que qualquer
outra coisa, apesar de ainda não lhe ter sido concedido a nacionalidade
francesa.
[48]
Mas a arte que realiza, como a sua personalidade
pública, é híbrida e reúne múltiplas
tendências/movimentos artísticos, incluindo o minimalismo,
a arte conceptual, o expressionismo abstracto, a arte feminista dos
Anos 60, a arte feminista bad-girl dos anos 80, e a sensibilidade
do texto-imagem da arte islâmica.
[49]
Tem
sido proposto um número aparentemente inesgotável de variações
e de abordagens críticas por artistas africanos que adoptaram
a diáspora como objecto da sua arte: Yinka Shonibare com a sua
homenagem e maliciosa recontextualização dos tecidos estampados
holandeses do comércio africano; Meshac Gaba com o seu extravagante
Museu de Arte Africana Contemporânea, que usa a irrisão
conceptual para desferir alfinetadas na ideia “Magiciens de
la terre” do artista ingénuo africano, e nos artistas
que a promovem; Rotimi Fani-Kayode com a sua sensual adesão ao
olhar apaixonado pelo masculino, no contexto de uma prática fotográfica
visando reconfigurar intelectualmente o ritual sagrado yoruba; e ainda
outros exemplos que o catálogo da exposição Looking
Both Ways ("Das Esquinas do Olhar") ilustra.
Até
que ponto estará uma arte semelhante também a “aderir
à marginalidade”, como acontece no fenómeno descrito
por Gayatri Spivak, em que estudantes de cor em ascensão aprendem
a falar (apenas) para e sobre si próprios de uma maneira que
confere poder mas que em última análise limita aqueles
que supostamente se representam a si próprios? (Um exemplo corrente:
em qualquer mesa-redonda, espera-se de um estudante afro-americano que
dê a perspectiva “da comunidade”, mas não é
ouvido sobre mais nada). É muito frequente (seja qual for o lado
da mesa em que nos encontremos) interiorizarmos isso inconscientemente
como um dever, tanto quanto como se nos fosse imposto.
[50]
Nesta perspectiva,
será o hibridismo ou a diáspora o novo essencialismo para
a identidade, e será o artista pós-colonial o novo “outro”?
Será que aquilo que há só uma década aqueceu
a cena contemporânea, e desarrumou as ideias antiquadas ou rígidas
de “nós” e de “o outro”, começou
agora a esfriar numa nova língua franca para a arte, como Gerardo
Mosquera recentemente sugeriu?
[51] O público
hoje em dia espera que os artistas anunciem a sua “fronteiridade”
do mesmo modo que a geração anterior tinha de representar
uma “africanidade” que validasse o seu trabalho para um
público internacional.
[52] E, tal como já
afirmei, este puzzle pode parecer hoje tão urgente porque o próprio
Ocidente é uma zona de fronteira tão entrecruzada.
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Fig 3 Private Rooms, 2001, por Ghada Amer.
Escultura bordada, instalação apresentada na Galeria Rhona Hoffman.
Fotografia cedida pela artista e por Deitch Projects, Nova Iorque.
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A arte marca a fronteira
Se voltarmos ao ponto onde começámos,
a carte de séjour,
vemos que Toguo está criticamente consciente quer do carácter
ilusório do sonho de realização no centro europeu,
quer das muito reais recompensas que esperam aqueles cidadãos
africanos que sabem mexer-se dentro do sistema e encontrar nele um lugar
para si.
[53]
O carimbo de visto de Toguo, convertido numa hábil peça
de escultura africana em madeira, funciona a vários níveis
ao mesmo tempo. Por um lado, desacredita o preconceituoso sistema internacional
de controlos fronteiriços, que perpetuamente aponta o africano
(negro) como suspeito e potencialmente criminoso, como oposto ao emigrado
trabalhador e idealista que ele ou ela provavelmente são. Por
outro, representa os dois lados de um preconceito cultural eurocêntrico
corrente (ele próprio bastante ingénuo) segundo o qual
aquilo que é real e autêntico em África e na sua
diáspora será sempre fantástico, primitivo, feito
à mão, e facilmente transportável.
A
arte de Toguo tem também presente outro preconceito eurocêntrico,
que actua ao nível do mundo mercantil internacional de elite
da arte contemporânea, cuja carte de séjour de acesso
à corrente dominante é um método estético
circunspecto que se inspira na moda das instalações de
arte e propõe uma crítica da construção
identitária. A escultura de Toguo é a marca da fronteira
política e económica entre a Europa e a África,
que é confundida demasiadas vezes (e por razões puramente
ideológicas) com uma fronteira entre mundos culturais mutuamente
incompatíveis. De maneira inteligente, o objecto artístico
de Toguo situa-se literal e seguramente no meio dos dois – mas
é um canhão disparando perigosamente rajadas simbólicas
nos dois sentidos. Não será a própria arte uma
espécie de visto de residência temporária entre
mundos políticos, geográficos e temporais supostamente
distintos?
A
chave aqui talvez seja uma nova ênfase na mobilidade do
local de enunciação, tanto quanto o objecto de
enunciação. Lembro-me de há dez anos me ter chamado
a atenção uma entrevista entre Thomas McEvilley e Tamessir
Dia na qual o artista falava de pinturas que não podia expor
na Costa do Marfim (onde vivia), com medo da censura oficial, mas que
iria mostrar em Veneza e em Nova Iorque.
[54]
Há algum tempo que Rotimi Fani-Kayode referiu que as suas fotografias,
devido ao conteúdo decadente ocidental que lhes é atribuído,
não seriam provavelmente muito bem recebidas se fossem expostas
na Nigéria.
[55]
A plataforma internacional que permite a esta recente geração
de artistas africanos expor as suas obras abriu-lhes a possibilidade
de serem críticos quanto ao modo como a África é
vista tanto no seu país como no estrangeiro (seja qual for um
e outro). Embora o panorama histórico tenha mudado, e a retórica
de “civilizar os nossos irmãos e irmãs africanos”
tenha sido limada, estes artistas representam uma continuidade da diáspora
com as ideias propostas nos anos 20 por Locke, e antes dele por Du Bois.
A
questão crucial nos nossos dias é a seguinte: será
a arte como uma carte de séjour simbólica de uma
abertura radical, ou será antes um certificado de dependência
da fronteira? Estes artistas que têm a diáspora como objecto,
e como objecção, estão, com o seu trabalho, em
posição de comentar o mundo, hoje, de maneiras que podem
ser bastante esclarecedoras – para todos nós. Quanto àqueles
que trabalham ainda no continente africano, mas que não fazem
ainda parte da elite crítica transnacional, e àqueles
cuja arte visa outros objectos além da “africanidade”
ou da diáspora, a luta por uma imagem continua.
John Peffer |
Fig 4 Private Rooms, 2001, por Ghada Amer.
Escultura
bordada, pormenor da instalação apresentada na Galeria Rhona
Hoffman. Fotografia: cedida pela artista e por Deitch Projects, Nova Iorque. |
*O
presente texto foi originalmente publicado em Laurie Ann Farrell (ed.),
Looking Both Ways. Art of the Contemporary African Diaspora,
Nova Iorque, Museum for African Art, 2003.
John
Peffer é professor assistente no departamento de História
de Arte na Northwestern University e autor de The Struggle for Art
at the End of Apartheid, tese de Doutoramento, Columbia University,
2002. A sua investigação e ensino centram-se na história
africana, na arte e teoria do século XX e na política
da cultura visual moderna. Recentemente, foi curador de duas exposições
sobre a arte da África do Sul, e colabora com artigos e recensões
em Cabinet, African Art, World Art, Rethinking Marxism, Third Text
e Art Journal.
[1] Era o caso na África
do Sul da era do apartheid. Aqueles que gozavam de liberdade de
circulação, que estavam relativamente libertos de uma geografia
étnica e da casa-prisão da raça, que podiam
entrar nos seus carros ou num avião e ir para qualquer parte dentro
ou fora do país sem receio de perder a sua identidade ou sem que
o seu passaporte/bilhete de identidade fosse investigado, tinham também
mais liberdade para exprimir as suas opiniões do que a maioria
da população. Para a maior parte da população,
a liberdade de existir era considerada como uma contradição
da liberdade de circular, o que talvez fosse o aspecto mais sufocante
do apartheid.
[2] Ver James Clifford,
“Diasporas”, in Routes: Travel and Translation in the Late
Twentieth Century, Cambridge, Mass.; Blackwell, 1997. De notar que
a tese para a Segunda Bienal de Joanesburgo desenvolveu-se em parte a
partir do texto de Clifford. Ver Okwui Enwezor, "Introduction. Travel
Notes: Living, Working, and Traveling in a restless world", in Enwezor
et al.; Trade Routes: History and Geography. 2nd Johannesburg
Biennale (Johannesburg: Greater Johannesburg Metropolitan Council,
1997). Ver também Robin Cohen, Global Diasporas: An Introduction
(Seattle: University of Washington Press, 1997). Clifford e Cohen analisam
uma vasta gama de formações e teorias da diáspora
que vai para além do âmbito do presente artigo.
[3] Ver The Oxford
English Dictionary, 2ª ed., vol. IV, 1989, Cohen (Global Diasporas,
pp. 1-6) defende que a história e a metáfora do cativeiro
de Babilónia,, tradicionalmente visto como um lugar de opressão,
pode também ser visto como criando um espaço cosmopolita
para o florescimento da criatividade religiosa e cultural que deu forma
a posteriores definições de judaísmo. Cohen observa
que desde muito cedo a ideia de um povo judeu foi um produto desta
disseminação de pessoas e de ideias, que inclusive “por
volta do século IV A.C. havia já mais judeus a viver no
exterior do que no interior da terra de Israel.” Por extensão,
a dispersão de qualquer cultura de diáspora no inteior de
países alheios pode entender-se como sendo simultaneamente definidora
dessas culturas dispersas e como contendo um enorme potencial criativo.
[4] Cohen (Global
Diasporas, p. 31) afirma que os termos “diáspora africana”
e “diáspora negra” não eram habitualmente utilizadas
até à década de 1950. No entanto, já no século
XIX, várias permutações combinando um “etiopianismo”
afrocêntrico com um tom bíblico entre os africanos das Américas
prometiam uma quase imaginária “pátria” (algures)
no continente africano.
[5] Clifford, “Diasporas”,
p. 250
[6] Ibidem, p.
251.
[7] Ibidem, p.
252. Ver também a análise incisiva e anti-racista de Paul
Gilroy da história e discurso do Atlântico Negro como uma
contracultura da modernidade (cf. Paul Gilroy, The Black Atlantic:
Modernity and Double Consciousness, Cambridge, Mass.; Harvard University
Press, 1993).
[8] Clifford faz esta
afirmação referindo-se à experiência judaica
(“Diasporas”, p. 248); é igualmente relevante quanto
à diáspora africana.
[9] Ver Edwin T. Ramoran,
“Sanford Biggers”, in Thelma Golden, Freestyle, catálogo
de exposição (Nova Iorque; The Studium Museum em Harlem,
2001).
[10] Uma identificação
ambivalente da diáspora com a terra-mãe pode assumir muitas
formas históricas diferentes, desde a manifestação
de afronta colectiva contra a invasão da Etiópia pela Itália
fascista em 1935, à oferta de assistência técnica
benévola aos países africanos recentemente independentes
na década de 1960, até aos continuados efeitos históricos
do colonialismo e do terror dos colonos na antiga colónia americana
da Libéria.
[11] Alain Locke, (ed.),
The New Negro, 1925 (reeditado por Simon & Schuster, 1997,
Nova Iorque), pp. 5-6.
[12] Ibidem,
p. 14.
[13] Ibidem.
[14] Vale a pena lembrar
que a Howard University, onde Skunder Boghossian começou a ensinar
nos anos 70, é a mesma universidade onde Alain Locke tinha sido
professor de Filosofia.
[15] As notáveis
excepções a esta tendência são a inclusão
de Boghossian na exposição The American Experience: Contemporary
Immigrant Artists organizada em 1985 por Independent Curators Incorporated,
e na exposição Ethiopian Passages: Dialogues in the Diaspora
no National Museum of African Art, em 2003. Tanto quanto sei, o trabalho
de Boghossian nunca foi incluído numa exposição de
arte contemporânea da diáspora arménia.
[16] Numa recente entrevista
em vídeo relacionada com a exposição “Ethiopian
Passages”, colocaram-lhe a seguinte pergunta: “A exposição
está organizada em torno de ideias de movimento, negociações
de identidade e experiências de diáspora. Como acha que estes
temas se reflectem no seu trabalho?” Boghossian respondeu: “Isso
é uma pergunta a que sempre me foi difícil responder: como
vejo eu a minha identidade no meu trabalho? Sei quem sou. Sei onde
estou… Gosto de ser um etíope na América… uma
cultura abençoada com todas as culturas do mundo.” Ver entrevista
com Elizabeth Harney em www.nmafa.si.edu/exhibits/passages/video.html.
Tratava-se claramente de uma pergunta orientada, que procurava enquadrar
previamente a resposta do artista de acordo com a concepção
curatorial de Harney. A resposta de Boghossian é particularmente
interessante, pois que ilude a definição mais estreita de
uma identidade que é negociada a favor de uma autoconsciência
que abarca o que há de melhor naquilo que o mundo da cultura pode
oferecer.
[17] Negritude, “o
somatório total de valores culturais do mundo negro-africano”,
na definição de Léopold Senghor, era uma filosofia
humanista e um movimento cultural fundado em Paris na década de
1960 por artistas e intelectuais da Àfrica francófona e
das Caraíbas. Inspirava-se em parte no exemplo anterior de W.E.B.
Du Bois, no panafricanismo e no movimento americano New Negro.
[18] Boghossian citado
na obra de Cynthia Jaffee McCabe, The American Experience: Contemporary
Immigrant Artists (Nova Iorque; Independent Curators Incorporated,
1985), p. 44.
[19] Ver Elizabeth
W. Giorgis, “Skunder Boghossian: Artist of the Universal and the
Specific”, em www.the3rdman.com/ethiopianart/boghossian.html.
[20] Rasheed Araeen,
“A New Beginning: Beyond Postcolonial Cultural Theory and Identity
Politics”, Third Text 50 (Primavera 2000), p. 10. Itálicos
do original.
[21] Ibidem,
p. 11.
[22] Kobena Mercer,
“Art and the Experience of African Cities”, in Pep Subiros
et al., Africas: The Artist and the City, A Journey and an Exhibition,
catálogo da exposição (Barcelona: Centre de Cultura
Contemporania, 2001), pp. 79-80.
[23] Laura Bigman,
“Contemporary Migration from Africa to the U.S.A.”, in Cohen,
ed. The Cambridge Survey of World Migration (Nova Iorque; Cambridge
University Press, 1995).
[24] Ibidem,
p. 260.
[25] Ibidem
[26] Ibidem,
p. 262. A um nível mais pessoal, um amigo nigeriano com uma boa
situação confidenciou-me recentemente que a mãe dele
teria de passar algum tempo em Londres à espera que as coisas se
compusessem, se a situação política no país
se continuasse a deteriorar. O recurso a saídas de emergência
semelhantes – ou o desejo de dispor de uma delas – faz parte
da vida na maior parte da África do século XXI.
[27] Clifford, “Diasporas”,
pp. 245-46.
[28] Ibidem,
pp. 246 e 256. Outro exemplo: os Estados Unidos da América têm
mantido intensas relações comerciais com Cabo Verde desde
os anos 80, e cerca de trezentos mil cabo-verdianos vivem hoje nos Estados
Unidos, sobretudo em New England – quase o mesmo número da
população que reside no arquipélago de Cabo Verde
(Bigman, “Contemporary Migration”, p. 260). A situação
política e económica no mundo após a Guerra Fria
é um cenário mais complexo que ultrapassa o âmbito
deste artigo; para uma análise mais pormenorizada ver Saskia Sassen,
Globalization and Its Discontents (Nova Iorque; The New Press,
1998).
[29] S. Vertovec, citado
in Cohen, Global Diasporas, p. 128.
[30] Cohen, Global
Diasporas, p. 174.
[31] Este problema
foi analisado por Octavio Zaya in “Meaning in Transit: Framing the
Works of Boutros, Dridi, Ennadre, Gasteli and Naji”, Nka: Journal
of Contemporary Art, 5, Outono 1996, pp. 50-53.
[32] Cohen, “Prologue”,
in Cohen, ed., The Cambridge Survey of World Migration (Nova Iorque;
Cambridge University Press, 1955), p. 3. Ver também Cohen, Frontiers
of Identity: The British and the Others (Londres; Longman, 1994).
[33] Ver Terence Ranger,
“The Invention of Tradition in Colonial Africa”, in Eric Hobsbawm
e Ranger, eds., The Invention of Tradition (Cambridge; University
Press, 1983).
[34] Edward Said defendeu
esta perspectiva da história da modernidade, que coloca em
primeiro plano as relações interdependentes entre o Ocidente
e o resto do mundo, e desvaloriza a obsessão racista com a imperscrutabilidade
do “outro”. Ver Said, Culture and Imperialism (Nova
Iorque; Vintage, 1993).
[35] Iain Chambers,
“Unrealized Democracy and a Posthumanist Art”, in Enwezor
et al., eds., Democracy Unrealized: Documenta 11, Platform 1 (Ostfildern-Ruit:
Hatje Cantz, 2002), p. 173. Ver também Chambers, Migrancy, Culture,
Identity (Londres, Routledge, 1994). A teoria de Chambers está
próxima do conceito de hibridismo, descrito por Homi Bhabha como
mimetismo do colonizador pelo colonizado que tem um potencial de desestabilizar
a visão holística que o colonizador tem de si próprio.
Ver Bhabha, The Location of Culture (Nova Iorque; Routledge, 1994).
[36] Chambers, “Unrealized
Democracy”, p. 175.
[37] Salman Rushdie,
citado in Thimothy Brennan, “The National Longing for Form”,
in Bhabha, ed., Nation and Narration (Nova Iorque; Routledge, 1990),
p. 48. Ver também os comentários do cineasta e autor senegalês
Ousmane Sembène acerca da língua francesa como uma ferramenta
que o artista africano pode usar ou adaptar como melhor lhe sirva, in
Samba Gadjigo, ed., Dialogues with Critics and Writers: Ousmane Sembène
(Amherst: University of Massachusetts Press, 1993).
[38] Chambers, Migrancy,
Culture, Identity, p. 27.
[39] Chambers, “Unrealized
Democracy”, pp. 174-75.
[40] Ver Mercer, “Black
Art and the Burden of Representation”, in Welcome to the Jungle:
New Positions in Black Cultural Studies (Nova Iorque; Routledge, 1994),
e Gilroy, “Cruciality and the Frog’s Perspective: An Agenda
of Difficulties for the Black Arts Movement in Britain”, Third
Text 5 (Abril 1989)
[41] Ver descrição
do programa pela curadora Valerie Cassel, in “Cry of My Birth”,
Art Journal, Primavera 2000.
[43] Isto é
particularmente verdadeiro no que se refere a Siemon Allen e a Julie Mehretu,
cuja obra é em grande parte abstracta, conceptual, apenas esotericamente
referenciável. Outro exemplo: as esculturas de Sokari Douglas representando
mulheres a empurrar carrinhos de bebé em Londres, ou a série,
mais recente, sobre a destruição pelos cartéis mundiais
de petróleo do povo e do ambiente no Sudeste da Nigéria.
Onde é que tais trabalhos têm lugar na actual procura de
“africanidade”, ou mesmo de "diáspora", na
arte? Ver a tal propósito os comentários de Olu Oguibe,
sobre a adesão ao estilo “Camp” nos museus etnológicos,
in “Finding a Place: Nigerian Artists in the Contemporary Art World”,
Art Journal, Verão 1999, p. 34.
[44] Assim, a fascinante
situação em que Yinka Shonibare é incluído
nos capítulos finais da segunda edição da obra de
Richard Powell (Black Art: A Cultural History, Nova Iorque, Thames
and Hudson, 2003), que é predominantemente um panorama da arte
da diáspora negra, assim como da obra de Sidney Kasfir (Contemporary
African Art, Nova Iorque, Thames & Hudson, 1999). Kasfir conclui
(p. 213): “Pode dizer-se que os artistas africanos não estão
tanto a lutar pela liberdade de serem “africanos” (o que quer
que isso queira dizer), como para serem plenamente aceites como artistas,
embora isso apenas se possa realizar através da sua “africanidade”,
uma vez que é essa a sede da sua exclusão categórica
de um discurso artístico global antes de mais nada.” Discordo,
em parte. O que Kasfir descreve bem é a relação histórica
entre o modernismo africano e o mercado artístico internacional.
Esta situação sofreu uma viragem durante a década
precedente, no entanto, sendo agora a moderna “africanidade”
um bem altamente desejável em arte, apesar de continuar a ser um
rótulo. Hoje em dia, numa das mais refinadas (mas também
mais negras) épocas de multiculturalismo, só se usarmos
uma identidade na manga é que nos deixam passar o umbral da porta.
[45] Hilarie Sheets,
“Stitch by Stitch, a Daughter of Islam Takes on Taboos”, The
New York Times, 25 de Novembro de 2001.
[46] Samuel Huntington,
“The Clash of Civilizations?”, Foreign Affairs, Verão
1993. Os seguidores da tese redutora de Huntington incluem o popular historiador
e colunista do New York Times Thomas Friedman, que cunhou a frase
infeliz “falhanços da modernidade” para descrever antigos
estados coloniais (maioritariamente islâmicos). Ver Friedman, “The
New Mideast Paradigm”, Foreign Affairs, 6 de Março
de 2001. O mundo político, de um modo geral, segue Huntington,
enquanto o mundo académico se mostra mais frequentemente inclinado
para a crítica de Said, tal como se encontra apresentada in “The
Clash of Ignorance”, The Nation, 22 de Outubro de 2001. Ver
também Said, Culture and Imperialism, pp. 258-261 et
passim. Benjamin Barber provocatoriamente, sugeriu também que
o Oriente e o Ocidente de Huntington, supostamente incompatíveis
(que Barber designa como “Jihad versus McWorld”), na realidade
operam no mesmo terreno tecnológico e ideológico. Assim,
dentro do mesmo mundo moderno, “Tanto a tendência Jihad
como a McWorld estão a funcionar, ambas visíveis por vezes
no mesmo país e precisamente no mesmo instante. Os zelotas iranianos
têm um ouvido sempre atento às incitações dos
mullahs à guerra santa e o outro virado para a estação
de televisão Star de Rupert Murdoch…. A Jihad não
é apenas opositora do McWorld, mas também seu cúmplice;
ao passo que McWorld não só desafia a Jihad como a recria
e reforça…. Produzem os seus contr´ários e precisam
um do outro.” (Barber, Jihad vs. McWorld, Nova Iorque, Times
Books, 1995).
[47] Ver Laura Auricchio,
“Works in Translation: Ghada Amer’s Hybrid Pleasures”,
Art Journal, Inverno 2001, p. 32
[48] Ibid.
[49] Curiosamente,
há pouco tempo é que a obra de Amer apresenta expressas
referências islâmicas ou egípcias – coincidindo
de certo modo com a sua crescente visibilidade nos circuitos artísticos
internacionais. Para um panorama da obra de Amer, ver Ghada Amer: Reading
between the Threads (Umea; Bildmseet, 2002).
[50] Gayatri Chakravorty
Spivak, Outside in The Teaching Machine (Nova Iorque; Routledge,
1993).
[51] Gerardo Mosquera,
“Good-Bye Identity, Welcome Difference: From Latin American Art
to Art from Latin America”, Third Text 56 (Outono 2001),
pp. 26-28.
[52] Araeen censurou
alguns destes artistas, assim como os curadores e críticos que
os promoveram, por actuarem demasiado colados à procura do mercado,
alegando que “o trabalho artístico que ao mesmo tempo não
lute criticamente com o sistema do qual procura o reconhecimento,
está simplesmente reduzido a uma coisa esotérica para o
mercado da arte”.
[53] Barthélémy
Toguo nasceu em Mbalmayo, nos Camarões, e estudou em Grenoble,
em Düsseldorf e em Abidjan.
[54] Thomas McEvilley,
Fusion: West African Artists at the Venice Biennale (Nova Iorque;
Museum for African Art, 1993), p. 65.
[55] Rotimi Fani-Kayode,
“Traces of Ecstasy”, Ten:8 2, nº 3, Primavera
de 1992, número intitulado "Critical Decade: Black British
Photography in the 80s".
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